Um desabafo e uma bela colecção de banda desenhada

Imagine-se um mundo em que o cinema não tinha a história que dele se conhece. Nesse mundo, o cinema que a maioria das pessoas conhecia compunha-se quase exclusivamente de filmes daqueles que invadem os canais nacionais ao domingo à tarde: farras de quarentões que ainda não acabaram a faculdade, comédias mais ou menos parvas, alguns filmes marcadamente de género, talvez de ficção científica. Pelo meio haveria outros, claro, mas tinham sido estes a formar a percepção que do cinema tinha a maioria. As pessoas com um determinado gosto por leituras, chamemos-lhe, elevadas não frequentariam, claro está, o cinema. Diriam dele que era uma coisa para entreter miúdos, mas da qual qualquer adulto com pretensões cultas deveria manter-se afastado. Claro que em vários espaços pouco ou nada conhecidos do grande público, leitores cultos incluídos, haveria gente a fazer outro tipo de filmes, talvez explorando temas e territórios como os da memória, talvez experimentando novos modos de trabalhar uma linguagem. Um dia, um realizador que farto de conotações pouco abonatórias sobre o seu trabalho, decidiu que queria  contar uma história que não era sobre farras de quarentões, nem uma comédia mais parva ou menos parva, nem uma aventura com homenzinhos verdes, e pensou que se lhe chamasse outra coisa que não cinema, talvez pudesse ser visto por outras pessoas que não as que frequentavam os grandes écrãs. Ou então, não foi um realizador, até porque outros antes dele já tinham feito o mesmo, foi o dono de um multiplex, ou de uma sala catita na baixa da cidade, que pensou que bem podia mostrar no seu écrã um daqueles filmes que se faziam fora do conhecimento do grande público, leitores cultos incluídos, mas que talvez pudesse dar-lhe um nome mais pomposo para ver se conseguia outros espectadores, mais espectadores, espectadores que não esperassem apenas uma barrigada de riso alarve ou o conforto do que já conheciam. Pouco importa quem foi. O que importa é que outros filmes começaram a chegar aos écrãs acessíveis a todos, mas ninguém quis chamar-lhes cinema, porque, lembremos o início do texto, cinema era uma palavra que se referia apenas àqueles filmes conhecidos do grande público e considerados pouco elevados, mesmo por esse grande público. O autor, ou o dono do multiplex, ou da sala catita, chamaram a estes outros filmes ‘moving novels’, porque assim se fazia a ponte com a literatura e porque esta história se passava, claro está, nos Estados Unidos, e descobriram que havia uma série de espectadores cheios de vontade de comprarem bilhetes para os tais filmes, desde que na porta não estivesse escrito ‘cinema’. Esses espectadores passaram a discutir o belíssimo ‘moving novel’ que tinham visto, como se tivessem descoberto a pólvora das imagens em movimento no grande écrã. Quando a moda de dar novos nomes às coisas que já existiam chegou a Portugal, chamou-se ao ‘moving novel’, essa nobilíssima arte acabadinha de descobrir, ‘novela em movimento’, esquecendo que ‘novel’ é bem capaz de querer dizer ‘romance’. Pouco importava. Agora, havia uma nova arte para descobrir, ignorando tudo o que já havia sido feito sob a égide do termo ‘cinema’, porque isso era coisa para miúdos ou adultos sem cérebro. Agora, sim, tinha nascido uma nova forma de expressão, muito mais nobre do que essa coisa do cinema, até porque era, de certezinha, outra coisa. Grosso modo, e sem entrar em detalhes cronológicos, debates académicos e quezílias várias, foi mais ou menos isto que sucedeu com a tal da ‘novela gráfica’.

  

Dito isto, a colecção que a Levoir está a distribuir com o Público, intitulada, precisamente, ‘novela gráfica’, é das melhores coisas a que pudemos assistir no que à edição de autores estrangeiros (e um português, Miguel Rocha, mas para esta conversa são os estrangeiros que importam, porque os portugueses, com mais ou menos público e com algumas dificuldades, vão sendo editados, e bem, por cá) diz respeito. Além disso, é uma colecção feita por gente que sabe realmente do assunto (portanto, não por alguém que tenha descoberto a pólvora agora, nem pouco mais ou menos), o que contribui, e não é pouco, para o resultado final. Temos, finalmente, no mercado, livros de Edmond Baudoin, Robert Crumb, Hector Oesterheld (com o belo Mort Cinder, com Breccia, integral). Temos títulos que deveriam constar de qualquer biblioteca bem apetrechada, não fosse a história da banda desenhada a história de um processo estranho e desequilibrado no que à percepção social diz respeito. Esqueçam lá a conversa da ‘novela gráfica’ e digam, sem medo, que estão a ler um livro de banda desenhada quando lerem Um Contrato com Deus. E, sobretudo, leiam Um Contrato com Deus, bem como os outros livros da colecção.

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