MURONG XUECUN: ESCREVER CONTRA O SILÊNCIO

Murong Xuecun é um dos escritores chineses mais referidos fora da China e os seus livros não são os únicos responsáveis pelo feito. Nascido Hao Qun, em 1974, Murong tornou-se conhecido pelas histórias que escreveu na internet, no início deste século, e que lhe granjearam uma legião de leitores um pouco por toda a China. Em 2002 publica o romance Leave Me Alone. A Novel of Chengdu, um retrato duro sobre a China contemporânea a partir de três personagens marcados pela falta de perspectivas de futuro, pelos esquemas de enriquecimento rápido e pela corrupção. A partir daí, voltou à literatura muitas vezes, com livros como Dancing Through Red Dust ou The Missing Ingredient.

murong
Fotografia © Festival Literário de Macau / Tatiana Lages

Convidado da IV edição do Rota das Letras, o festival literário de Macau que decorreu em Março passado, Murong Xuecun falou para uma sala cheia sobre o seu percurso como escritor, mas falou sobretudo da luta diária pela liberdade de expressão na China, a outra vertente que o tornou conhecido no mundo, sobretudo desde que começou a escrever uma coluna regular sobre a realidade chinesa para o New York Times. Entre uma sessão sobre literatura e uma outra dedicada ao seu trabalho no New York Times, Murong Xuecun falou à Blimunda sobre as mudanças que deseja para a China e sobre o modo como a sua escrita quer participar nessas mudanças.
Leave Me Alone. A Novel of Chengdu marcou a estreia literária do autor, em 2002, e essa estreia aconteceu na internet. Apesar disso, Murong Xuecun não é um daqueles escritores que se tornam famosos apenas porque passaram do anonimato para fenómenos de popularidade nas redes sociais. Foi a realidade chinesa, com os mecanismos de censura e a proibição de publicar livros que não sejam favoráveis (ou, pelo menos, inócuos) ao Governo, que ditaram a internet como meio de publicação. Sem a pressão de entregar um manuscrito fechado a uma editora, o autor foi escrevendo como se de um folhetim se tratasse. “Quando comecei a escrever esse livro, não sabia o que ia acontecer, até porque não tinha nenhuma espécie de guião. Publiquei o primeiro capítulo na internet e não fazia ideia de como ia ser o segundo, e assim aconteceu ao longo de todo o livro. Fui pensando na história à medida que a escrevi, pelo que o resultado foi, pode dizer-se, uma espécie de acidente.” Um acidente bem sucedido, pode dizer-se. Leave Me Alone é um romance vertiginoso no modo como encena o vazio de uma certa urbanidade contemporânea, as vidas sem outro objectivo que não o ter um pouco mais de dinheiro, de modo a ascender a uma classe média que aparenta felicidade entre marcas, viagens e luxos até aqui proibidos. Questionado sobre a vontade de recriar uma Chengdu que servisse de metáfora para a China urbana contemporânea, com a sua dedicação às aparências e as suas ilusões de enriquecimento fácil, Murong confessa que escreveu sobre Chengu porque era a realidade que melhor conhecia: “Tive um colega que desviou cerca de um milhão de yuans da empresa onde trabalhávamos e depois disso, claro, fugiu. Acabou por ser encontrado noutra província, e foi preso, mas o que me deixou curioso foi o facto de ele ter conseguido gastar todo o dinheiro que desviou num só ano. Às vezes conversava com ele e perguntava-lhe sempre como tinha conseguido gastar o dinheiro, e ele contava-me várias das suas histórias loucas, o jogo, as mulheres, os amigos… De certo modo, foi nele que me inspirei, pelo menos parcialmente.”

Num dos debates do Rota das Letras, Murong Xuecun explicou que os direitos de autor não podiam ser a sua primeira preocupação, tendo em conta que os seus livros nem sequer puderam ser publicados na China. O autor, que tem romances traduzidos em várias línguas, disponibiliza os seus livros na internet, em chinês, em regime de acesso livre, e escreve regularmente na rede Weibo, muitas vezes contornando a censura, sobre os temas que o preocupam. “O primeiro livro que disponibilizei teve cem milhões de descargas. Na rede social Weibo, tenho 8,5 milhões de seguidores.” Se as mudanças que muitos chineses preconizam acontecerem, realmente, na China, a internet terá nesse processo um papel essencial, como confirmou Murong citando um prémio Nobel da Paz: “como disse Liu Xiaobo, a internet é uma espécie de dádiva dos deuses… De certo modo, é um pouco isso.” As redes sociais assumem um lugar central na discussão sobre os direitos e liberdades e na luta pela democracia na China. Como explicou Murong Xuecun num dos debates em que participou, essas redes são um espaço vigiado, sim, e onde muitas vezes são encerradas contas e apagados comentários pela censura, mas onde é muito difícil controlar toda a gente ao mesmo tempo. O engenho verbal e algum humor fazem o resto, com os participantes nos debates virtuais a encontrarem alcunhas para os governantes de quem querem falar, ou nomes alternativos – mas esclarecedores – para os temas proibidos. Por exemplo, o massacre da Praça de Tiananmen, em 1989, é frequentemente referido como ‘o ano anterior à 1999’ e a China comunista é, por vezes, chamada de ‘Rússia amarela’. As estratégias de despiste nem sempre duram muito tempo, mas quando uma expressão é apanhada pelo radar da censura e bloqueada, já várias outras se criaram para ocupar o seu lugar. De certo modo, é um movimento imparável, por mais muralhas virtuais que se criem para filtrar o que aparece na rede. E criam-se muitas, como contou Murong a propósito de um debate sobre a Grande Fome, período entre 1958 e 1961 em que, na sequência das políticas económicas de Mão Tse-Tung, milhões de chineses morreram de desnutrição. O tema, claro está,mnão faz parte dos programas curriculares de História, nem é permitida a sua referência pública. À semelhança do que acontece com a Revolução Cultural, ou com Tiananmen, a Grande Fome nunca existiu, pelo menos para o Governo chinês. “Entre 2010 e 2013, o debate sobre a Grande Fome era quase diário no Weibo. Uma das grandes discussões aconteceu em 2012, provocada por um dos responsáveis pelo Diário do Povo, que negou a Grande Fome, e envolveu cerca de vinte mil pessoas. Em quinze dias, havia milhões de comentários sobre o assunto e houve alguns jornalistas que começaram a investigar o período da Grande Fome, tentando reconstruir a nossa história. Depois disso, o Governo encerrou todas essas discussões, claro, mas o debate deixou frutos.”

Apesar do descontentamento crescente, sobretudo entre as camadas mais jovens, não é fácil imaginar uma China com eleições livres e democráticas nos tempos mais próximos. Para Murong Xuecun, um dos muitos dissidentes chineses que sabe que a sua liberdade pode estar por um fio, essa mudança acabará por acontecer. Nem a desmobilização do movimento Occupy, de Hong Kong, parece desmoralizá-lo, e isto apesar de Hong Kong ser um território com alguma autonomia relativamente à China continental, com um sistema político e penal que garante liberdades e direitos impensáveis no continente. Se nesse território falhou a luta pelo sufrágio universal (com candidatos livres, e não escolhidos pelo Partido Comunista Chinês), como é possível depositar tanta esperança numa mudança para a democracia na China? “Há um ano, em Pequim, houve um encontro de escritores, académicos, advogados, e falámos sobre isto mesmo. Uma pessoa perguntou quanto tempo iria durar o Partido Comunista Chinês e pôs várias hipóteses, à consideração dos presentes. Quando perguntou se seriam dez anos, apenas três ou quatro pessoas levantaram o braço. Depois perguntou se seriam vinte anos e quase toda a gente levantou o braço. Acho que isto quer dizer alguma coisa. A era da internet tem mudado muitas coisas no modo como os chineses têm consciência da sua realidade. Há cada vez mais pessoas descontentes com o Governo e a mostrarem o seu desacordo. Os valores morais do Partido Comunista e de Xi Jinping [Presidente da República Popular da China] tornam-se cada vez mais claramente ridículos nesta era. Quase todas as frases ditas pelo Governo são ridicularizadas. Xi Jinping só está há dois anos no seu lugar, mas tem-se promovido bastante. As alcunhas e as piadas que circulam na net sobre ele são cada vez mais. A situação tem algumas semelhanças com os últimos tempos da era soviética, ou do governo da Alemanha de Leste, ou de todos os regimes com poder centralizado e mão de ferro. Em 2010, as manifestações que aconteceram na China tiveram cerca de 180.000 pessoas. Depois disso, deixou de haver números exactos sobre manifestações e manifestantes, mas é óbvio que continuam a acontecer. A China é um país rodeado de problemas. Hong Kong, Tibete, Taiwan, Japão. Mesmo Macau pode ser um problema, ainda que muito mais pequeno. Talvez um dia todos esses problemas se transformem num único é enorme problema. Portanto, acredito que mais cedo ou mais tarde as coisas vão mudar.” Virá essa mudança de fora, dos países e territórios em volta da China? “Não exactamente. Acredito que a mudança virá de dentro, mas o que se passa à volta da China será muito importante também.”

Ouvir Murong Xuecun sobre a ameaça que paira sobre si é simultaneamente emocionante e constrangedor. Percebe-se que o autor acredita realmente na possibilidade de uma mudança profunda na China, e os artigos que assina no New York Times são disso exemplo, mas percebe-se igualmente que este é um homem sobre o qual pende a ameaça da privação de liberdade, à semelhança do que tem acontecido com outros dissidentes chineses. Os textos do New York Times, onde tem denunciado a suposta luta contra a corrupção levada a cabo por Xi Jinping como sendo uma luta de fachada, ou onde explica como funcionam os interrogatórios e as prisões de todos quantos se opõem ao Governo e às suas políticas, nunca poderiam ser publicados no espaço da China continental. Apesar disso, e da certeza que estes textos serão do conhecimento do Governo e das suas estruturas de manutenção da ordem, Murong Xuecun divide o seu tempo entre Hong Kong, território livre relativamente à censura e às prisões de dissidentes, e Pequim, centro nevrálgico do mesmo regime que Murong gostaria de ver mudado. Como é isso possível sem que tenha sido preso? “Há pessoas com mais força do que eu a criticarem o Governo e o Partido [Comunista Chinês], em publicações e em sites da internet. E algumas destas pessoas vivem na China continental. O que acontece é que o Governo não pode prender-nos a todos, por um lado, e por outro lado também lhe é conveniente mostrar uma suposta abertura, um gesto de boa vontade. Apesar disso, não acredito que esta benevolência vá durar muito tempo. Não sei quando vai acontecer, mas sei que um dia chegarei a Pequim e terei agentes em casa e verei o passaporte confiscado e tudo o resto se sucederá.” Pensa nisso com frequência? “Nos últimos quatro anos, pensei nisso todos os dias, sim.” Como é que se vive quotidianamente com essa espada sobre a cabeça? “O mais importante é perceber que as coisas, hoje, são diferentes. Ser preso na China já não é um sinal de se ser um mau elemento da sociedade, como um ladrão ou um assassino. Hoje, aqueles que são presos acabam por ser uma espécie de heróis. Alguns dos meus amigos, cerca de dez, foram presos no último ano e as pessoas mostraram-lhes o seu respeito. Isto deu-me força para suportar a ideia. Por outro lado, eu não quero sair da China, não quero ser um expatriado. É na China que eu quero viver, quero comer comida chinesa, falar chinês. Esta é a minha terra e talvez sejam precisos alguns sacrifícios para alcançar isso.” Que esses sacrifícios nunca impeçam Murong Xuecun de falar e escrever livremente, é o que nos cabe desejar.

Nota: um agradecimento final é devido a Wendi Song, que participou como intérprete nesta conversa com Murong Xuecun.

Sara Figueiredo Costa
(texto publicado na Blimunda, #35, Março 2015)

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s