Bagagem de Mão

A crónica de Maio para o Ponto Final, de Macau:

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Para Kalil, onde quer que esteja

Apresentações de livros tendem a ser momentos de alguma repetição formal. Autores e editores sentam-se ao lado de um convidado para dizer umas palavras sobre o assunto e no fim há palmas e livros vendidos. Sem paradoxo, não faltam modos de tornar esta repetição menos monótona. Há livros e livros e o mesmo é válido para autores, editores e convidados a botar discurso. Já assisti a lançamentos em que o autor está tão nervoso que mal consegue balbuciar os agradecimentos, a outros em que o convidado falou tanto de si próprio que a assistência julgou ter aparecido no lançamento errado e alguns que se tornaram momentos bonitos de partilha em torno de páginas impressas.

Há uns dias, pediram-me para apresentar um livro e o convite para a apresentação garantia que a formalidade ia esboroar-se num gesto colectivo. O livro era ‘Que Luz Estarias a Ler?’, uma pequena plaquete assinada por João Pedro Mésseder e Ana Biscaia. O gesto colectivo era uma sessão de solidariedade com o povo da Palestina. Explico melhor. ‘Que Luz Estarias a Ler?’ é uma ficção criada a partir de uma série de fotografias que circularam pela imprensa internacional logo depois do bombardeamento desferido sobre Gaza pelo exército de Israel, no verão de 2014. Nessas fotografias, e particularmente numa delas, vê-se uma menina recolhendo livros por entre os escombros daquilo que sabemos ter sido uma escola. A partir dessas imagens, Ana Biscaia criou uma série de ilustrações às quais João Pedro Mésseder deu vida narrativa, construindo uma história possível para os momentos que se seguiram. Nessa história, Aysha, uma menina que sobrevive às bombas, fica a saber da morte de vários dos seus colegas, particularmente de Kalil, seu amigo. Num gesto de resgate, e porque Kalil gostava muito de ler, Aysha dedica-se a procurar entre os destroços da escola os livros que permaneceram, salvando-os como se assim pudesse preservar a memória do amigo.
Quando as notícias deixaram de ser momentos relevantes na nossa vida colectiva e passaram a constituir um elemento mais entre a catadupa de supostas informações que nos entram pelo ecrã a cada milésimo de segundo, a discussão sobre a fronteira que separa realidade e ficção tornou-se tema quotidiano. O que sabemos do que nos é dado sob o prisma de uma suposta objectividade imparcial? E que imparcialidade é essa que devemos, os jornalistas, seguir como regra básica, e como podemos trabalhar com ela sem passarmos a ser autómatos que apenas relatam sem questionar? São dúvidas antigas, agora ampliadas por esta espécie de caos apocalíptico que parece ter tomado conta do mundo, mesmo que talvez tenha sido sempre um caos apocalíptico a governar este mesmo mundo. Quando um objecto ficcional, conto, romance, filme, o que for, coloca em cena uma narrativa que não é, nem quer ser, jornalística, mas que ainda assim ajuda a olhar a realidade e a compreendê-la um pouco melhor, apontar o dedo ao carácter ficcional é menos proveitoso do que pensar sobre o tempo que nos calhou viver. ‘Que Luz Estarias a Ler?’ coloca esse desafio, inventando uma história para a menina de quem pouco sabemos e que, por isso mesmo, poderia ter vivido a história que para ela se inventou. Aysha pode ter sido a menina que se deixou fotografar nos escombros daquela escola de Gaza, ou qualquer outra menina em qualquer um dos muitos cenários das guerras que nunca deixámos de saber fazer.

Na sessão acolhida pela Fundação José Saramago, um porta-voz do Movimento pelos Direitos do Povo Palestino e pela Paz no Médio Oriente descreveu aos presentes o modo como se vive nos territórios ocupados da Palestina, os ataques aleatórios, a repressão diária, a luta pela dignidade. Os autores falaram do processo de criação e do que os moveu e eu cumpri o papel de falar sobre o livro que ali nos juntou, destacando precisamente este limbo que passamos a vida a definir como fronteira clara, ficção de um lado, realidade do outro, como se séculos de filosofia não nos tivessem ensinado a escorregar em tão acidentado território. No fim da sessão, dois homens aproximaram-se da mesa para cumprimentar autores e participantes. Disseram que eram palestinianos e agradeceram cada uma das palavras, agradecendo especialmente o trabalho dos autores. Levantei-me para os cumprimentar também. De pé, os homens levavam a mão direita ao lado esquerdo do peito e agradeciam. “Somos da Palestina”, disseram várias vezes, com as palavras a faltarem-lhes para conseguirem dizer mais. Na parede, uma tela mostrava ainda a ilustração da contra-capa do livro, com o rosto de Kalil, o rapaz inventado por João Pedro Mésseder e Ana Biscaia, iluminado pela curiosidade perante o mundo, ignorante do final que estaria prestes a chegar. Um dos homens – soube depois que era o conselheiro da Embaixada da Palestina em Lisboa – apontou para a tela. “O meu pai chamava-se Kalil.” Sorri com a coincidência, pensando em perguntar se Kalil era nome comum na Palestina, mas a vontade de perguntar (sempre a vontade de perguntar, a vontade de validar a tal realidade escorregadia com perguntas e informações que possam verificar-se) sumiu-se a tempo: “Mataram-no na Faixa de Gaza.” Tantos minutos a dissertar sobre o quanto a realidade e a ficção se misturam, mesmo quando temos a obrigação quotidiana de lhes procurar os limites, e bastaria ter passado o microfone para a assistência, onde um homem teria resumido a questão sem teoria nem medo de pisar a deontologia. Pela minha parte, já não quero saber se Kalil é nome comum na Palestina. Chega-me saber deste homem assassinado na sua terra para perceber que nunca mais deixarei de saber que o Kalil da contra-capa está em demasiados sítios do mundo à espera que uma bomba lhe leve a vida.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Maio 2015)

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