Bagagem de Mão

A crónica de Junho para o Ponto Final, de Macau:

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Meia vida encaixotada
Num dos muitos textos belos e precisos que escreveu sobre a memória e o modo como a sua construção nos define, o filósofo alemão Walter Benjamin falou do processo de voltar a arrumar os livros depois de uma mudança. Sem beleza nem precisão, também eu tenho a biblioteca encaixotada, à espera da mudança para uma casa maior que irá, finalmente, acomodar páginas e lombadas sem o aperto da actual. Quando se anunciou o Prémio Camões deste ano, atribuído à escritora portuguesa Hélia Correia, quis regressar aos seus livros e deparei-me com uma prateleira vazia. Olhei para os caixotes onde se acomodam os autores portugueses e não tive coragem de os voltar a abrir, arruinando umas quantas horas de trabalho. Queria voltar a Lillias Fraser, o primeiro livro da autora que li. Não podendo fazê-lo, lembrei o modo como chegou à minha estante e o quanto está ligado ao ofício que me ocupa os dias.
Lillias Fraser publicou-se em 2001, e lembro-me de o ter comprado movida pela sinopse da contracapa. Nunca tinha lido nenhum livro de Hélia Correia e pareceu-me que era altura. Avançando pelas páginas, fui tomando notas e acabei por escrever uma curta recensão que publiquei na Storm Magazine, uma revista digital que existia na época, dirigida por Helena Vasconcelos. Seguiram-se outros livros da autora, entre emprestados por amigos ou encontrados em livrarias. O anúncio do Prémio Camões fez-me recordar tudo isto, mas o livro que realmente queria voltar a ler por estes dias era A Terceira Miséria,  poemas publicados em 2012, pela Relógio d’Água, que guardam entre os seus versos uma lucidez implacável sobre os dias que vamos vivendo nesta Europa à beira do colapso. Sem o livro, recordo apenas versos soltos: “De que armas disporemos, senão destas/ que estão dentro do corpo”, a miséria “de quem já não ouve nem pergunta./ A de quem não recorda.” São versos que não permitem reconstruir os poemas, mas que desencadeiam as sinopses necessárias para fazer ecoar na memória o livro completo, a convocação da velha Ágora como espaço público e comunitário onde temos de nos entender para podermos viver, o resgate de uma certa ideia de Pólis que afaste de vez a burrice dos que dizem “eu de política não quero saber”, como se não querer saber do modo como nos organizamos para viver não importasse.

A Terceira Miséria é um livro fundamental para os dias que correm e será um livro duradouro no futuro incerto que nos espera. Com ele vêm os Estudos de História da Cultura Clássica, de Maria Helena da Rocha Pereira, a República, de Platão, e talvez o Manual do Guerrilheiro Urbano, de Marighella, com as devidas relativizações. E vêm, de certo modo, todos os livros que depois da Grécia, a antiga, fizeram o cânone do nosso continente a caminho do abismo. Os livros que se guardam são redes onde uma ideia chama por outra, numa deambulação que só gente com perfil para dirigir ministérios das finanças acredita ser inútil. “A produtividade, ora aí está, quero dizer, não ando aqui a brincar, não há tempo a perder”, canta José Mário Branco no FMI. Uma biblioteca também guarda discos. E filmes. E pedras. Com excepção dos sobrinhos ainda pequenos, creio que nunca ninguém me perguntou se já tinha lido todos os livros da minha biblioteca. Seria uma pergunta tonta.

Os livros que guardo nas estantes, e que se espalham por toda a casa como uma praga bíblica, roubando espaço, criando pó e obrigando à mudança para uma casa maior, são parte fundamental da minha vida, claro. A memória ainda permite traçar a origem de cada um deles, quem mo ofereceu, onde o comprei, se o li, para que artigo ou trabalho o anotei. Se um incêndio, um terramoto ou outra espécie de catástrofe mos fizesse desaparecer, não sei bem que pessoa passaria a ser. Mas sei que não deixaria de ser. Sem meninges capazes de fixarem longos trechos de livros como as personagens de Fahrenheit 451, o romance de Ray Bradbury onde uma rede de cidadãos que tiveram a inteligência de não pensarem que a política não lhes interessava memoriza passagens dos livros que a ditadura manda queimar, lembraria com detalhe um ou outro verso, algumas passagens, algumas imagens. O resto, o que permanecesse com menos precisão, mas ainda assim com alguma constância, seria uma espécie de biblioteca sobrevivente. Sem caixotes nem fita-cola castanha, o que sobrasse da maldita catástrofe explicaria aos meus sobrinhos pequenos o porquê de ser tonto perguntar se li todos os livros da biblioteca. E a alguns adultos sem desculpa etária também.

Sara Figueiredo Costa

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