Orpheu: a revista que inaugurou o século XX

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​Foi uma bomba em forma de revista. Como quase sempre, a detonação não mereceu aplauso geral e só anos mais tarde, perante a paisagem de estilhaços, a importância de ‘Orpheu’ foi devidamente reconhecida. O primeiro número da revista ‘Orpheu’ publica-se em Março de 1915, graças aos esforços de Fernando Pessoa, principal mentor do projecto, e de Mário de Sá-Carneiro, para além dos colaboradores cujo nome figura no índice. Ainda o mês de Março não tinha terminado e já a crítica assinava textos devastadores, desvalorizando a revista e comparando os seus colaboradores a um bando de loucos clinicamente comprovados. Júlio de Matos, no jornal ‘A Capital’, disse mesmo que “o que se conclui da literatura dos chamados poemas subscritos por Mário de Sá-Carneiro, Ronald de Carvalho, Álvaro de Campos e outros é que eles pertencem a uma categoria de indivíduos que a ciência definiu e classificou dentro dos manicómios, mas que podem sem maior perigo andar fora deles…”. Prosas de igual calibre deram sequência à verrina de Júlio de Matos, confirmando que ‘Orpheu’ tinha vindo abalar o remanso das instituições literárias e os modos de escrever então dados como canónicos. Um século depois, os críticos de ‘Orpheu’ são uma curta nota de rodapé na história da literatura. Já a revista que Fernando Pessoa idealizou confirmou-se como um ponto de viragem, fincando definitivamente o Modernismo na cultura portuguesa.
​Celebrando os cem anos de ‘Orpheu’, a Tinta da China e a Fundação EDP lançaram uma edição especial que promete dar a ler a revista tal e qual como em 1915. Numa caixa preta e forrada a tecido guardam-se as edições fac-similadas dos dois números publicados de ‘Orpheu’, as provas tipográficas do terceiro número – que não chegou a existir –, e uma pequena plaquete com um texto do editor responsável, Steffen Dix, igualmente comissário de uma exposição dedicada à Geração de Orpheu que pode ser vista no Museu da Electricidade, em Lisboa. Ao Ponto Final, Steffen Dix falou sobre a importância desta revista: “Com base na mitologia antiga podíamos dizer que o ‘Orpheu’ representa de facto o ponto a partir do qual se tornou impossível olhar para trás. Ou seja, a revista significa o passo definitivo e irrevogável para a modernidade. Nisso consiste o grande valor do ‘Orpheu’ para a cultura portuguesa.” Quanto aos motivos que fazem desta nova edição um objecto essencial para a leitura da revista, um século depois da sua publicação, Steffen Dix esclarece: “Olhando para esta edição fac-similada no seu conjunto, há várias razões para nos surpreendermos. Por exemplo, até agora não se sabia que o número 1 da revista foi acompanhado por um separador das páginas e um pequeno panfleto publicitário que anunciou – para o número 2 – a ‘colaboração especial do futurista’ Santa-Rita Pintor e o ‘manifesto da nova literatura redigido por Fernando Pessoa’. Estes dois documentos estão agora, pela primeira vez, incluídos nesta edição fac-similada. Ou seja, trata-se da edição fac-similada do ‘Orpheu’ mais completa e mais fiel até agora publicada.”

​Leitura semelhante faz Jeronimo Pizarro, estudioso da obra de Fernando Pessoa e responsável pela edição da obra completa deste autor na mesma chancela que agora publica a revista modernista: “É importante esclarecer que esta é a primeira edição autenticamente fac-similar (feita à semelhança) de ‘Orpheu’ 1, 2 & 3. Basta confrontar esta edição com as que se conheciam para perceber que esta é a primeira. O esforço de investigação foi grande; também o investimento tecnológico. Ora, ‘Orpheu’ ultrapassa a obra pessoana, mas a edição da Tinta-da-china é importante para ler, com toda a fidelidade possível, alguns dos maiores poemas de Fernando Pessoa e para descobrir esse feito tipográfico que foi a revista. Basta lembrar uma carta de Mário de Sá-Carneiro: ‘Os meus parabéns, ah! mas os meus vivíssimos parabéns pelo novo papel do nosso Orpheu que você fez imprimir não sei aonde. Homem, onde raio foi descobrir aquele tipo de papel e de letra – tão Álvaro de Campos e, ao mesmo tempo, tão inglês?’.” O feito tipográfico que Pizarro destaca salta à vista quando se folheiam as três revistas fielmente reproduzidas. O cuidado na composição de cada página, a escolha de fontes tipográficas inovadoras para a época, o modo limpo mas meticulosamente estudado de apresentar os conteúdos. Só o papel não pôde ser reproduzido, ainda que se note que a escolha feita pela Tinta da China procura uma solução muito perto do original.

​Para o terceiro número do ‘Orpheu’ estava prevista a inclusão de um conjunto de quadros de Amadeo de Souza-Cardoso, os ‘hors-textes’ de que Pessoa terá falado quando preparava a edição e que nunca se encontraram entre as provas tipográficas, único material que sobreviveu desse número inédito. O contributo desta edição da Tinta da China para o conhecimento da Geração de Orpheu passa pela apresentação, feita por Steffen Dix na plaquete introdutória, de uma hipótese muito consistente de esses ‘hors-textes’ terem sido encontrados entre o espólio do pintor Amadeo Souza-Cardoso. Como explicou o editor ao Ponto Final, “temos como testemunho uma frase de Pessoa que escreveu no início de Setembro de 1916 a Armando Cortês-Rodrigues que o Orpheu 3 ia incluir quatro hors-textes de Amadeo de Souza-Cardoso, na opinião de Pessoa ‘o mais célebre pintor avançado português’. E ainda mais tarde, em 1965, Almada Negreiros falou de algumas reproduções fotográficas na sua posse que seriam publicadas no Orpheu 3. A pesquisa de várias pessoas permitiu uma identificação destes hors-textes, e os mesmos estão agora reproduzidos, pela primeira vez, nesta edição fac-similada. Contudo, Pessoa falou de quatro hors-textes e são provavelmente estes que foram indicados no espólio de Amadeo de Souza-Cardoso. Por outro lado, no espólio de Almada encontram-se apenas três reproduções das quais são apenas duas idênticas às imagens do espólio de Amadeo. Isso implica que continuamos, falando destes hors-textes, ainda no reino da especulação e não temos, de maneira nenhuma, meios definitivos que permitiram dizer claramente em que parte da revista estas imagens apareceriam. Não existem provas que confirmem claramente o lugar destas reproduções, mas mesmo assim temos hoje em dia uma ideia muito clara e nítida sobre a natureza geral das imagens que seriam os hors-textes do Orpheu 3.”

​Perante a impossibilidade de continuar a publicar a revista que havia mudado a literatura e a cultura portuguesas, o poeta Mário de Sá-Carneiro preconizava um regresso do projecto, mesmo que sem data marcada, anunciando que “o Orpheu há-de continuar”. Desaparecidos os protagonistas, a frase ficaria como uma espécie de oráculo com contornos messiânicos e cem anos passados sobre a revista que fundou o século XX português, importa perguntar se haverá espaço, ou sequer necessidade, para um projecto semelhante? Steffen Dix é peremptório na recusa: “Não acho que exista a necessidade ou o espaço de uma nova revista com a capacidade de abrir novos caminhos, pelo menos em termos artísticos. E ainda não vi nenhuma publicação ou nenhum movimento que pudesse representar uma continuação do ‘Orpheu’. Vivemos num tempo diferente no qual não há necessidade ou possibilidade de uma continuação directa do ‘Orpheu’. No entanto, acho que há – de facto – uma continuação do ‘Orpheu’ num outro nível. Hoje em dia, ler, pensar ou discutir o ‘Orpheu’ ajuda-nos a reflectir sobre a nossa própria modernidade. E desta maneira sim – o ‘Orpheu’ não acabou, o ‘Orpheu’ continua.” E Jeronimo Pizarro, menos assertivo, concorda: “Eu não sei se hoje, três o quatro rapazes de vinte e tal anos, poderiam desassossegar o suficiente a ambiente literário europeu, mas que uma revista de dois números (quase três) seja hoje a materialização mais visível e importante do primeiro modernismo português, é um feito. Uma nova revista – parecida com ‘Orpheu’ – só teria sentido se fosse a cristalização generosa de uma geração brilhante, e não sei se neste momentos há poetas que queiram, mesmo sendo individualistas como Pessoa, fazer de uma revista o seu símbolo comum.” Apesar disso, Mário de Sá-Carneiro não se enganava. Um século depois do primeiro número de ‘Orpheu’, os ecos da geração excepcional que a concebeu continuam presentes e imprescindíveis na literatura e na cultura portuguesas, sendo seguro afirmar que quase nada do que seguiu teria sido possível sem que Pessoa, Sá-Carneiro e companhia tivessem tido a ousadia de imprimir uma revista contra o cânone instalado e de olhos postos num futuro que ainda nem se imaginava.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Julho 2015)

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