Bagagem de Mão

A crónica de Julho para o Ponto Final, de Macau:

PFJul2015

Os Cinco dão cabo do cânone

​A moda dos inquéritos de Verão parece estar um pouco arredada da imprensa de hoje, mas quem se lembra da presença regular de semelhante rubrica em todas as canículas lembrar-se-á igualmente da erudição da maioria das leituras escolhidas para o período das férias. Intelectual, ou candidato a, que se tivesse em boa conta não falhava o ‘Em Busca do Tempo Perdido’, de Proust (às vezes no original francês, que até se ouvia ribombar os ‘r’ da Recherche), um ou dois russos de monta, um ‘Ulisses’, de James Joyce, um clássico greco-latino. A gente lia aquilo e imaginava os nossos cultos estendidos na praia com uma estante a servir de almofada, perdendo-se no cheiro das madalenas proustianas enquanto as crianças da toalha mais perto faziam uma birra ou quando o vendedor de Bolas de Berlim (com creme e tudo, que isto de a ASAE decidir o que comemos não deve ser tolerado nem em registo cronístico) passava a berrar. Ali postos em sossego, numa beira-mar a salvo de qualquer Moby Dick, não perdiam o fio à meada, nem sequer quando a mudança súbita de maré avançava indiferente à zona de chapéus de sol e lhes encharcava a toalha, as roupas, a cadeirinha. Em qualquer caso, os nossos cultos nem sequer liam estes portentos literários: como é lógico, estavam em pleno exercício de releitura, para não correrem o risco de dar descanso às meninges e perderem a profundidade do pensamento entre duas ondinhas.

​Agora que os inquéritos de Verão estão fora de moda, e deixando de lado o charme de brincar aos cultos instantâneos, aproveito para acrescentar um bocadinho de irrelevância ao tema enquanto registo os meus projectos de leitura para as férias que, espero, conseguirei ter (nos inquéritos, toda a gente tinha férias, e imagino que subsídio para as ditas também). Ora, sem vontade de russos nem de greco-latinos, este Verão gostava de voltar aos livros de ‘Os Cinco’. Bem sei que isto não fica bem, que uma pessoa deve fingir estar permanentemente em alerta erudito e que muitos leitores gostam de arrumar as estantes de modo estanque, não vão as ideias misturar-se, mas tenho a dizer em minha defesa que na biblioteca cá de casa os livros de ‘Os Cinco’ estão umas prateleiras ao lado dos russos, ali entre os alemães e os ingleses. E estão lá muito bem, relacionando-se pacificamente com todos os vizinhos. Mas com tanto Turgueniev para ler e reler, para quê voltar aos fedelhos ingleses? Porque tenho saudades de quando as férias de Verão eram grandes e se podia perder horas infinitas a não fazer nada que merecesse referência em inquéritos de Verão. Ah, a nostalgia… Não só. Também tenho vontade de perceber como sobreviveu ao tempo a prosa de Enid Blyton (que, ao que parece, era má como as cobras e não suportava crianças). Ah, a presunção literata… Sim, sim, e a isso há que juntar a necessidade imperiosa de voltar a ler as descrições daqueles lanches intermináveis onde o Júlio, a Ana, a Zé, o David e o Tim comiam prazerosamente sem o fantasma do colesterol a ameaçá-los e com isso me ensinaram o que são scones, como se distingue a geleia da compota e por que é que temos todos os motivos e mais algum para afastar uma certa repugnância inicial e dedicarmos algum do tempo estival a fazer sandes de pepino. Sim, de pepino, duas fatias fininhas de bom pão e rodelas de pepino igualmente finas. Os gourmand podem barrar previamente uma das fatias com manteiga sem terem de se denunciar ao Master Chef. Se me avistarem numa tenda perto da praia, rodeada dos livrinhos de ‘Os Cinco’ na velha edição da Notícias, não se aflijam. Antes de Setembro já estarei de volta aos lançamentos de livros onde toda a gente é muito culta, não tolera misturas do entretenimento com a alta literatura e acredita piamente que existe de modo absoluto uma coisa chamada ‘literatura infantil’.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Julho 2015)

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