Guy Deslisle, Pyongyang: Uma viagem à Coreia do Norte

PYONGYANG - CAPA

Guy Deslisle
Pyongyang: Uma viagem à Coreia do Norte
Devir/ Biblioteca de Alice

Num país onde a censura impede o acesso à internet, a circulação de notícias ou qualquer crítica ao Governo, há estúdios de animação a produzirem para o mundo – e não para o próprio país, onde alguns dos conteúdos não seriam aprovados. A explicação é simples e dá pelo nome de mercado: é mais barato produzir ali do que no Japão, centro nevrálgico da área, ou mesmo na China, pelo que o negócio foi-se criando com o beneplácito do governo e a lógica da mão de obra barata e obediente. Foi assim que Guy Deslisle, autor de BD por vocação e animador de profissão, chegou a Pyongyang em 2001 para uma estada de dois meses, da qual resultou este livro. Relato do quotidiano do autor na cidade, Pyongyang é uma narrativa dedicada a ver e dar a ver uma sociedade diariamente obrigada a ignorar a fome, a repressão, o fechamento total.

A linha clara de Deslisle não se presta a experimentalismos ou inovações gráficas, mas serve de modo eficaz as intenções narrativas do livro, cruzando o registo dos dias com apontamentos como o do trabalhador autómato, com corda e tudo, ou as ruas sempre às escuras, com excepção das efígies do grande líder. Deslisle equilibra sabiamente a ironia, o sarcasmo e a seriedade com que observa as poucas pessoas que consegue ver fora do seu circuito diário. Em certos momentos, essa seriedade transforma-se em melancolia, como quando vê um homem empoleirado numa árvore, colhendo frutos furtivamente, e logo depois de achar a cena divertida, percebe que o homem estará ali por necessidade, porque a fome o obriga a isso. Preso entre o hotel e o estúdio, sempre com o tradutor ou o controleiro no seu encalço, Deslisle dedica-se a tentar passear sozinho, para conhecer a cidade, algo que as autoridades não permitem. Consegue fugir algumas vezes, mas nunca para muito longe, e apesar de as suas incursões na cidade serem tão limitadas, o que o rodeia no hotel, no trabalho e nos curtos horizontes que alcança pelas janelas do carro que o transporta chega para se perceber que o quotidiano é uma anomalia social, erguida por um regime onde a mão de ferro e a megalomania alucinada se dão bem e imposta aos cidadãos pela lei da força.

Pyongyang é absurdo e doloroso, com momentos absolutamente hilariantes e murros no estômago que cheguem para pensar duas vezes sobre a bondade dos amanhãs que cantam. Essa é a grande virtude deste livro, capaz de confirmar que o riso continua a ser o melhor modo, e o único capaz de preservar a saúde mental, de lidar com os absurdos da humanidade.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista E/ Expresso, Agosto 2015)

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