Comida de Cantão à mesa de Lisboa

Em Agosto, fui provar a comida cantonense do Yum Cha Garden lisboeta, para ver se os dim sums eram tão bons como os que se comem no sul da China. O resultado da intensa pesquisa teve como destino o Ponto Final, de Macau, como habitualmente.

yumcha

COMIDA DE CANTÃO À MESA DE LISBOA

​A abertura de um novo restaurante chinês em Lisboa não seria motivo para notícia de jornal, mas a fama do Yum Cha Garden de Oeiras, um espaço que foi conquistando boas críticas na imprensa e uma legião de clientes habituais, despertou a curiosidade de quantos ouviram falar num novo Yum Cha Garden, desta vez no centro da capital. No dia em que o Ponto Final visitou o restaurante, à hora do almoço de um dia de semana, a sala estava composta e a maioria das mesas parecia frequentada por gente que sabia exactamente o que queria comer. Passaram vários cestinhos com dim sum enquanto analisávamos o menu, e todos suficientemente fumegantes para recomendarem um pedido semelhante.

​Provaram-se as patas de galinha com molho de feijão preto, bem cozinhadas, com a cartilagem no ponto e intensificadas pela malagueta e o cebolinho frescos. A salada de medusa, mais conhecida deste lado do mundo por alforreca, comprovou que o mesmo ser de que fugimos na praia pode ser o nosso melhor amigo se estiver devidamente acondicionado num prato: acompanhada com legumes frescos e um molho tailandês com o toque certo de picante, a medusa estava crocante e bem envolvida pelos outros ingredientes. Também se comeram uns bolinhos de inhame e carne, fritos num polme muito leve, bolos de arroz glutinoso e carne, com o arroz menos pegajoso do que seria de esperar, mas ainda assim com o sabor da carne a fundir-se com o do lótus que envolve tudo, e uns dim-sums de camarão acabados de fazer, a confirmarem que a expectativa com o novo Yum Cha Garden era merecida e a afastarem o receio de encontrar a heresia dos dim-sums congelados.

​Depois do repasto devidamente saboreado e pago, o Ponto Final foi recebido por Chen Hui, responsável por este novo espaço de boa comida chinesa em Lisboa. Dona do restaurante original, em Oeiras, onde o pai e o irmão continuam a trabalhar, a empresária decidiu abrir um novo Yum Cha Garden no centro de Lisboa. “Muitos clientes que visitavam o restaurante de Oeiras eram de Lisboa e estavam sempre a perguntar quando é que aqui chegávamos. Foi agora.” Com as portas abertas desde o início de Julho, o restaurante já tem clientes habituais, entre os que eram presenças fiéis em Oeiras e os que descobriram o novo local lisboeta. A clientela é portuguesa e chinesa, o que confirma a qualidade da cozinha. É sabido que os restaurantes chineses que até há uma década povoavam a cidade não primavam pela diversidade gastronómica, oferecendo menus quase sempre iguais, onde a comida, independentemente dos ingredientes principais, apresentavam o mesmo sabor uniforme, resultado de uma mistura de molho de soja, molho de ostra e molho de peixe. Os restaurantes que foram abrindo entretanto quebraram essa regra monótona, passando a oferecer comida de diferentes regiões da China e uma variedade que deu a conhecer aos lisboetas uma parte, ainda que pequena, da imensa gastronomia chinesa. E longe vão os tempos em que os ingredientes da cozinha chinesa eram inacessíveis aos lisboetas. “Muitas coisas compram-se no supermercado e nos mercados do Martim Moniz. Os ingredientes mais difíceis, mandamos vir da China, de Hong Kong ou da Holanda”.

Yumcha2

​Para além dos pratos mais pequenos, aptos a integrarem a tradicional refeição partilhada do Yum Cha, há igualmente uma oferta ampla de pratos de carne, peixe e marisco, evegetarianos. Apesar da variedade, os dim-sums são a jóia da coroa: “Alguns clientes queixam-se do tempo que demoram a chegar à mesa, e então explico-lhe que só os recheamos e colocamos no vapor quando há um pedido, para garantir que o que se come é realmente fresco. Depois de perceberem isso, os clientes já não reclamam.” É o marido de Chen Hui que cozinha a massa e os recheios, confeccionando cada bolinho à medida dos pedidos. Liu Yun Zhi, o cozinheiro especializado em cozinha cantonesa, repete essas tarefas diariamente com a ajuda de seis cozinheiros-ajudantes. “É muito trabalhoso, mas vale a pena”, diz Chen Hui. E nós só podemos concordar.

​De Oeiras para Lisboa é um pulo e a auto-estrada até permite levar ingredientes de um lado para o outro, quando é preciso. Falta perceber como chegam a Portugal Chen e Liu. A geografia gastronómica levou-nos ao engano, pensando que ambos viriam do sul da China. Afinal, foi em Fujian que ambos nasceram e onde viveram até terem trocado o Oriente pela Europa. Na Holanda, onde trabalharam ambos até há cerca de quinze anos, Liu Yun Zhi especializou-se na cozinha de Cantão. “Quando nos instalámos na Holanda, o meu marido encontrou trabalho num restaurante chinês e foi aprendendo as técnicas e os modos de cozinhar. Os restaurantes chineses que havia naquela zona da Holanda eram todos de dim-sums e de cozinha cantonesa, por isso foi essa a área em que se especializou. Depois de quinze anos naquele país, decidimos vir para Portugal e foi assim que abrimos o Yum Cha Garden.” O de Oeiras, claro, porque o de Lisboa só haveria de nascer seis anos mais tarde, neste Verão em que há tão poucos lisboetas na cidade e, mesmo assim, vamos encontrar tantos deles, portugueses ou chineses, na Rua D. João V, entre Campo de Ourique e as Amoreiras.

​De Fujian para Cantão através da Holanda, de Oeiras para Lisboa através da auto-estrada A5, o Yum Cha Garden instalou-se em Portugal com a nobre missão de dar a provar (e a repetir) a boa comida da gastronomia cantonesa. E apesar de Chen Hui ser de outra província, e da sua relação com Cantão ser mais de vizinhança que de vivência, o cantonês vai entrando aos poucos no seu dia a dia. “Só falava mandarim, mas como tenho muitos clientes de Cantão, vou ouvindo falar o cantonês todos os dias e já vou falando também.” Quanto aos portugueses que aqui vêm almoçar ou jantar, “quase todos se dão bem com os fachi, os pauzinhos, como vocês dizem por cá, e parece que os dim-sum já são familiares para muitos clientes”, diz Chen Hui. Só falta trocar a sardinhada ou o cozido de Domingo pelo Yum Cha cantonês e deixar de olhar para os bolinhos salgados e cozidos ao vapor como se fossem entradas.

​Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Agosto 2015)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s