Bagagem de Mão (Agosto 2015)

A crónica de Agosto para o Ponto Final:

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UM PARAÍSO GELADO E SEM ‘SUNSET’

​Pelo que me contam, ir a banhos em Macau não é a ideia mais saudável deste mundo, apesar de haver praia e meteorologia para tal. Desculpem-me, portanto, os leitores com saudades de praia sem riscos sanitários, mas deste lado do mundo estamos no tempo de veranear e mesmo quem ainda não teve férias já andou pelo areal três ou quatro vezes, pelo que a crónica deste mês será dedicada à praia. Esqueçam-se todas as modas instantâneas, e frequentemente idiotas, que aparecem hoje e morrem amanhã (as ‘selfies’ com os pés na areia, as festas ‘sunset’, como quem acabou de inventar o pôr do sol, a necessidade absoluta de engolir gin com sabores tão estapafúrdios que um dia destes vamos ver bolo do caco a flutuar na água tónica…) e regresse-se a Ramalho Ortigão e ao seu livrinho “As Praias de Portugal – Guia do Banhista e do Viajante” (há boas edições fac-similadas pela internet, é uma edição recente da Quetzal).
​Ortigão não era a pessoa mais bem disposta da sua época e esse humor rezingão nota-se nestas páginas, mas haverá poucas impressões tão certeiras quanto estas sobre a nossa costa e sobre as coisas que lá se passam na época estival. É certo que a primeira edição é de 1876, pelo que já ninguém vai para a praia de carroça, ou vestido até ao pescoço, mas a natureza das relações humanas, os comportamentos de quem se julga o bom selvagem só porque está de férias e os vícios do quotidiano levados para o areal continuam iguaizinhos. Na Granja, zona balnear perto do Porto, o autor disserta sobre a pouca vontade de sossego que os banhistas em férias realmente têm, insistindo no absurdo de quererem manter uma vida social frenética: “De modo que é absolutamente impossível passear só, ficar em casa, fechar a porta, prescindir das relações, abstermo-nos dá convivência, dispensar a companhia, por um dia, por um só dia, que seja.” (p.104). E em Lisboa, sempre sem perder o tom assertivo e prático de quem escreve um guia, deprecia quase tudo com um desprezo elegante, proclamando que veranear em Sintra, com as suas praias, aldeias e paisagens serranas, é “das poucas coisas boas, úteis, higiénicas, moralizadoras, que um lisboeta pode permitir-se o luxo de gozar pelo preço de uma das suas libras” (p.126). Estará certo o autor quanto à boa vida de Sintra por comparação com a capital, sempre tão cheia de si (e agora tão cheia de turistas e hotéis a convencerem-nos de que foi bom a imprensa estrangeira ter-se engasgado com tanta tinta a anunciar que está era a melhor cidade do mundo para visitar), mas fica-nos a dúvida sobre a moral. É que “As Praias de Portugal” está cheio daquelas considerações sobre a ‘condição feminina’ que só desculpamos por causa da lonjura da cronologia, e mesmo assim, de mau grado, pelo que fica a pairar um certo desconforto ao pensar no que raio haverá de moralizador numa ida a Sintra. Os travesseiros da Piriquita? O pão saloio? É verdade que um lisboeta apreciador de praias que não pareçam enclaves de areia e água à beira de cidades de urbanismo duvidoso, ou que não sejam uma espécie de rio disfarçado de mar, saberá que as praias de Sintra são as melhores, sem hipótese de argumentação. O nevoeiro que tanto pode chegar da serra às quatro da tarde, levando consigo todo o sol, como estar instalado no areal logo pela fresca, é apenas um detalhe. A água capaz de congelar instantaneamente o sistema nervoso central, e tão salgada que pode curar um lombo de peixe-pampo mesmo antes de este ser pescado e fatiado, é uma benção que só quem viveu em Sintra as férias de Verão da sua infância pode perceber como a mais maravilhosa de todas as águas.
​Falar das praias de Sintra ao mundo resolveria de uma vez os problemas da enchente turística e a mania dos ‘sunsets’: se todos os turistas aqui estendessem a toalha, convencidos pelas palavras de um qualquer jornal internacional acerca das maravilhas desta costa, regressariam ao aeroporto devidamente gelados e não pensariam em esgotar os espaços públicos tão cedo, ficando apenas aqueles que soubessem perceber que o paraíso não tem de ser feito de areias quentes, festas sonoras na praia e cocktails coloridos – há arribas selvagens, um ar puro e forte, daquele que limpa os pulmões, e umas quantas vilas e aldeias onde ainda se come pão a sério e se bebe vinho da pipa sem ser preciso uma carta de sabores… Por outro lado, a frequência das praias de Sintra haveria de dar um fim rápido e cruel à tontice das ‘sunsets parties’. Por estas bandas, ver o pôr do sol é uma sorte reservada apenas aos dias sem névoa. E apesar disso, ele põe-se, todos os dias. Se isto tudo soar, de algum modo, a mau humor, regresse-se a Ramalho Ortigão para tirar a teima.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Agosto 2015)

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