Marcelo D’Salete em entrevista

Na Blimunda de Julho, entrevistei Marcelo D’Salete, autor brasileiro de banda desenhada que lançou recentemente o livro Cumbe em Portugal.

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Foto: Chico de Assis

A HISTÓRIA NÃO É DE ONTEM
Marcelo D’Salete em entrevista

​Editado em Portugal pela primeira vez, Marcelo D’Salete está longe de ser um estreante no campo da banda desenhada. Antes de Cumbe, que saiu no Brasil em 2014 e foi recentemente publicado pela editora portuguesa Polvo, o autor já contava com dois livros e uma longa experiência no campo da auto-edição, dos fanzines e da distribuição directa. No passado mês de Maio, Marcelo D’Salete esteve em Lisboa para participar num painel do programa Próximo Futuro, da Fundação Calouste Gulbenkian, juntamente com Posy Simmonds (do Reino Unido) e Anton Kannemeyer (da África do Sul). Antes do painel, conversou com a Blimunda sobre Cumbe e sobre o seu trabalho.

​Dono de um traço simultaneamente reconhecível e heterogéneo, Marcelo D’Salete trabalha no registo a preto e branco, só aparentemente mais simples, tirando das duas cores e das suas múltiplas gradações as formas e tonalidades que asseguram a matéria-prima das suas histórias. “O meu traço tem muito a ver com a minha trajectória, que é a de desenhar desde muito cedo e depois fazer o curso de Artes Plásticas. Acabei por escolher trabalhar sobretudo a preto e branco, que é uma técnica que ainda estou aprendendo. E vou aprendendo cada vez mais, à medida que vou trabalhando. Esta forma de trabalhar com manchas, e mesmo com a caneta,acho que tem muito de alguns quadrinistas europeus que eu admiro e de alguns outros artistastambém, como Flavio Colin, André Kitagawa, o pai e o filho Breccia [Alberto e Enrique] e o [José Antonio] Muñoz. São artistas que eu admiro muito, que trabalham muito bem no preto e branco, dando uma dimensão muito forte da cena e às vezes conseguindo também sugerir algo quase abstracto, como acontece com Muñoz e com Breccia. Então, acabei escolhendo essa técnica porque era onde o meu desenho mais se desenvolvia.” A escolha começou por aparecer em histórias curtas, circulando nos espaços habituais da pequena edição, e chegou ao primeiro livro, Noite Luz, publicado em 2008: “Nesse primeiro livro, o Noite Luz, ainda estava aprendendo, editando, desenvolvendo diversas formas de traço, desde a caneta nanquim até ao pincel, portanto há uma grande variedade de formas de traçado nessas seis histórias. Já em Encruzilhada, foi onde consegui desenvolver um desenho, um contorno e um trabalho com manchas mais homogéneo. Acho que esse traço também tem muito a ver com a minha forma de ver a cidade, sobretudo nos dois primeiros livros. Sempre gostei muito de desenho de observação. Esse tipo de traço, acho que é algo que se aproxima um pouco dessa forma de fazer desenho de observação, e também de registar a cidade, grandes metrópoles, não só o centro, a parte – vamos dizer – economicamente mais importante, mas também as periferias, os grupos mais marginalizados da sociedade. Acho que esse traço tem um pouco dessa história.”

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​Num meio editorial à margem dos grandes grupos, com recursos limitados e quase sempre dependentes da capacidade financeira individual do autor que quer publicar, a escolha do preto e branco é muitas vezes definida por essa contingência. O caso de Marcelo D’Salete não é diferente desses muitos projectos que começam a editar em pequena escala, mas a escola do perto e branco tem uma motivação que é, antes de qualquer outra, de ordem estética. “Inicialmente, o perto e branco tem que ver muito com a minha forma de desenhar, mas é lógico que depois, quando começo a fazer as histórias e a pensar nesses livros com as minhas histórias, começo a pensar como viabilizar isso financeiramente e publicar, e é lógico que o uso do preto e branco facilita ainda mais a publicação. Um trabalho com cor tem um custo final muito maior. Não é o motivo primeiro, mas acho que essas duas questões se somam. Depois há um outro ponto.Inicialmente, quando comecei a publicar, o que havia era as revistas mix, com histórias de vários autores e sempre muito curtas, oito páginas no máximo, mas a revista onde eu publicava, a Fronte, já tinha a ideia de trabalhar com histórias mais longas. As minhas histórias têm um tempo um pouco dilatado, e isso é algo de que eu gosto, o tempo para a descrição de alguns elementos do quotidiano, para a observação… mas nessas publicações mix era complicado. Ao levar isso para publicações com histórias apenas minhas, claro que elas ficaram mais extensas e a questão do custo ser mais baixo, por causa do preto e branco, ajudou a viabilizar a publicação no formato que eu desejava.”

​O trabalho de Marcelo D’Salete revela um interesse particular pelo espaço, não enquanto mero cenário ou pano de fundo, mas antes como categoria que assume um papel essencial na construção das personagens e no desenrolar de tensões, descobertas, conquistas. Nos dois primeiros livros, Noite Luz e Encruzilhada, a cidade é o espaço, com as suas áreas demarcadas socialmente e com os habitantes equilibrando-se entre o convívio e o conflito. Centro e periferia são o contraste mais óbvio, mas ambos os livros se afastam do lugar-comum social para explorar os equilíbrios possíveis a partir da história de cada habitante. Num lugar onde a História parece sempre relegada para o passado, seja ele patrimonial ou episódico, D’Salete dedica-se com afinco a construir pequenas histórias do quotidiano, revelando que cada uma delas será, já é, parte essencial dessa ideia de História que a cidade parece nunca assumir para algumas das suas zonas geográficas e para os seus respectivos habitantes. “O espaço e os objectos têm uma importância muito grande nos meus livros. Gosto de criar os personagens sempre pensando a partir dos objectos que eles utilizam, dos símbolos que eles portam. Isso é muito forte na Encruzilhada, com os logotipos que são símbolos de consumo e se relacionam com a personalidade dos personagens. No Cumbe, tentei trabalhar com símbolos, também, e trabalhei no sentido de criar uma identidade a partir dos elementos visuais, usando símbolos de origem banto, um grupo que vem do centro e sul da África. No caso dos outros livros foram mais os logotipos, a pixação e o grafitti, que são símbolos que definem uma visualidade própria das grandes cidades e das periferias dessas cidades. Acredito que é uma forma de uma certa juventude marginalizada se expressar que está para além daquilo que a cidade pode, por vezes, compreender. Se a gente pensar que o que impera nas grandes cidades é a arquitectura, são paredes, grades e propaganda, a pixação e o grafiti saem um pouco dessa lógica, embora hoje o grafitti já esteja um pouco mais domesticado, mas a pixação sai muito dessa lógica.” A pixação, ou as tags, surgem, então, como apropriação do espaço público por parte de quem não lhe tem acesso, ou cujo acesso é condicionado por regras que não são iguais para todos os habitantes da cidade, algo que se reflecte na banda desenhada de D’Salete como no quotidiano das grandes cidades brasileiras: “A pixação, no Brasil, é um elemento fortemente político, que surge com a ditadura, a partir da década de sessenta. Depois são os grupos jovens e marginalizados que começam a utilizar, muitas vezes se comunicando apenas entre si. E essa também é uma forma de criar uma identidade com a cidade.”

​De certo modo, este conflito entre pessoas e espaços também se percebe em Cumbe, apesar da vertente histórica da obra, ambientada no Brasil colonial do século XVII. O interesse de Marcelo D’Salete por esta dinâmica social e pelo conflito que lhe é inerente é mais pessoal e contemporâneo do que a datação histórica da acção de Cumbe deixa adivinhar. “Eu sou da periferia de São Paulo. Passei a infância em São Mateus, um bairro bem afastado, e depois na zona leste de São Paulo, que é uma zona um pouco mais pobre. Trabalhei como office boy, ajudante de marceneiro, várias coisas. O local onde eu circulava na cidade passava muito por esses espaços e percebi que nas histórias em quadrinhos que eu lia não tinha muitas referências à história ou à cultura do negro. Às vezes apareciam como personagens secundários, ou folclóricos, ou figuras da media, como o Pelé. Mas havia uma ausência desse tipo de representação e dos conflitos que acontecem nessas zonas, e isso era algo de que eu queria falar. Isso acontece no Noite Luz e no Encruzilhada, com personagens marginalizados, geralmente negros, mostrando uma perspectiva sobre a cidade. No Cumbe, o tempo histórico muda, passamos para o Brasil colonial do século XVII, mas a minha preocupação de falar a partir desse ponto de vista continua, então falei do período colonial, mas não a partir dos registos coloniais, dos registos de brasileiros e portugueses do poder colonial. Eu queria falar dessa época a partir dos outros registos, e esses são poucos. Foram 350 anos de escravidão, mas os relatos dos próprios escravos são muito pouco conhecidos. Há alguns textos recentes que referem relatos de africanos escravizados que saíram do Brasil e foram, depois, para os Estados Unidos, e aí contaram a sua história. Mas temos alguns casos, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, de escravizados que, com problemas com ‘senhores’ ou outro tipo de casos, foram parar na justiça. Aí temos registos policiais, muitas vezes dando essa visão do quotidiano, das histórias pessoais, dos escravizados, coisa que não temos nos registos oficiais. A partir daí surgiram algumas das histórias do Cumbe. Claro que não me limitei a representar as histórias que encontrei. O meu interesse era trabalhar com ficção, criando narrativas que fossem interessantes de serem lidas hoje.” Percebe-se, então, que a matéria histórica não é ponto de partida para uma reconstrução do passado, mas para uma reflexão sobre o presente enquanto resultado de um continuum histórico, sempre a partir da ficção. “O facto histórico, ele foi um motivo inicial importante, mas a partir daí a história tem outros desdobramentos. E esses registos têm, por vezes, detalhes do quotidiano desses escravizados, dos modos de relacionamento entre eles, mas não tem muito sobre o imaginário e a cultura desses escravizados, e isso tentei reconstituir a partir de pesquisas sobre os escravizados de origem banto, pelo menos para alguns personagens. Outros já assimilaram a cultura branca, cristã, e isso também acontecia, claro, até porque isso permitia acesso a outras condições de vida nessa sociedade, e por isso a personagem que usa o crucifixo, numa das histórias, vive e trabalha na casa grande.”

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​Característica comum de um certo discurso sobre o período colonial e da escravatura, sobretudo por parte de alguma historiografia portuguesa, é a ideia se uma certa ‘suavidade’ da acção dos colonizadores, como se a dominação portuguesa tivesse sido mais branda do que outras. E do lado brasileiro, como é esse discurso? “No Brasil existe o mito da democracia racial, de harmonia social, que é algo que não acontece na prática. Na prática a gente tem grupos muito bem marcados, socialmente falando, e a população negra está na base dessa pirâmide. A grande maioria dos mais pobres são negros e pouquíssimos estarão entre os mais ricos. Apesar disso, a sociedade brasileira ainda continua a alimentar uma ideia de democracia racial e social. No Encruzilhada, a última história é sobre um homem negro, segurança de uma universidade, que tinha um carro de boa marca. Foi fazer uma compra com a família num supermercado Carrefour e ficou no estacionamento, ao lado do carro, enquanto a família ia às compras. Apareceu um grupo de homens e prenderam-no, acusando-o de estar a roubar o próprio carro. Prenderam-no num quartinho, bateram-lhe, ficou sem uma série de dentes. Ouvi o relato dele e resolvi transformá-lo numa história. O que acontece é que falar desses casos de discriminação e racismo é tentar ir contra essa lógica que tenta contar uma história do Brasil que não é factual. Claro que há racismo, e muito mais eficiente do que noutras sociedades, porque sempre aconteceu de uma forma velada, sem ser explicitado, e então, permanece. A proposta era falar um pouco sobre isso no Encruzilhada, e também no Cumbe, sobre esse conflito no Brasil colonial, e falar não de uma posição de aceitação, mas mostrando como esse sistema se alimentava da violência e da imposição.” Para D’Salete, a reflexão sobre o período colonial e a escravatura não é apenas algo que se impõe enquanto visão crítica da História, mas antes como uma urgência relativamente ao presente. “Trabalhei um tempo num museu que há em São Paulo, o Museu AfroBrasil, dedicado à cultura negra. Num dos espaços do museu, fala-se sobre escravidão e há um conjunto grande de objectos de castigo. É uma das alas mais visitadas do museu. Mas o que é que esses objectos de castigo tinham que me parece interessante para reflectir? As escolas que visitam o museu vão sempre muito focadas em cristalizar aquela visão do negro como vítima, como aquele que sofreu, e ‘olha o que eles faziam na época’, deixando as coisas no passado e não no presente. Mas esses objectos mostram que em todos os engenhos eles existiam, e existiam porque tinha resistência, tinha fuga, tinha gente que não se acomodava àquele sistema. O que eu quis com Cumbe foi não falar dos escravos como vítimas, aqueles que foram subjugados, mas como aqueles que também resistiram, que lutaram.”

​Se a ficção não tem de alimentar-se de uma ideia de História enquanto reprodução de factos documentais, também não tem por que demitir-se do papel que pode assumir nesse olhar para o passado a partir, inevitavelmente, do presente que habitamos. “Como a gente tem esses relatos históricos somente a partir do poder colonial, acho que a partir da ficção é onde a gente consegue construir uma outra perspectiva sobre aquele momento histórico. Aí está a importância da ficção. A partir dela a gente tenta reconstruir uma leitura, a partir do presente, sobre o que pode ter acontecido. Sempre tento pensar nas minhas histórias não como uma visão definitiva sobre o assunto, mas como uma visão mais, uma perspectiva sobre este ou aquele assunto. A ficção tem um papel fundamental, sem ela não há como a gente criar esse tipo de perspectiva. E só com a ficção a gente tenta criar isso de uma forma em que você lide com sentimentos, com empatia, com outras habilidades, outros recursos para além da questão mais lógica, quantitativa, sobre determinado facto.” Se há lição a tirar de Cumbe, é essa antes de qualquer outra.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Blimunda, nº38, Jul. 2015)

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