AFONSO CRUZ: A MEMÓRIA EM CONSTRUÇÃO

Afonso Cruz regressa ao romance com Flores, em edição da Companhia das Letras, numa narrativa que tem a sua origem no Teatro das Compras 2014, uma série de histórias curtas que o autor escreveu para esta iniciativa lisboeta e que não quis desperdiçar depois de caído o pano. Um homem que perdeu a memória e um outro que está à beira de perder a vida como sempre a conheceu encontram-se no mesmo prédio e hão-de influenciar a vida um do outro sem plano prévio nem mapa orientador. Na esplanada da Cinemateca de Lisboa, o autor falou ao Ponto Final sobre este livro, reflexo do mundo e de um país que parece não conhecer outro estado que não o crítico.

afonsocruz

Depois de Para Onde Vão os Guarda-Chuvas, um romance complexo em termos de estrutura, com fios múltiplos e diferentes linguagens a cruzarem a narrativa, agora temos em Flores um romance mais plano, mais curto. Foi uma mudança de ritmo propositada?
Não foi propositada no sentido de planeada, mas acabou por sair assim, talvez por ter escrito sob o ponto de vista de uma das personagens, algo que exige uma maior contenção. Não posso ter tantas linhas paralelas porque não tenho essa omnisciência que seria possível se fosse eu o narrador. E depois há o facto de se passar em Portugal, que não tem uma geografia necessária para o que fiz no romance anterior, mas era mais pertinente passado em Portugal do que noutro sítio qualquer. Conheço melhor os pequenos episódios do século XX e poderia contar uma história mais concisa com estas personagens que, precisamente, atravessam a segunda metade do século XX e o início do XXI.

Este livro diz na contracapa que é um romance sobre o amor (que também será), mas a leitura deixa-nos com a ideia de que será sobretudo um romance sobre a redenção. É assim?
Sim, é um romance sobre a redenção, sobre a memória e o modo como lhe damos forma e como acreditamos muitas vezes que a identidade é um resultado da memória, ou de um fio de causa e efeito que é o nosso passado. Só que no livro é o oposto disso que se passa: é alguém que perdeu a memória, perdeu a coisa mais importante e definidora da nossa memória, que são os sentimentos e os afectos, aquilo que nos liga verdadeiramente às coisas, e apesar de ter perdido isso não perdeu a sua identidade. Mantém o seu eu, ou o reconhecimento do seu eu, intacto, e portanto quando se olha ao espelho sabe quem está ali.

Isso faz-nos questionar sobre o que será, então, a nossa identidade.
Sim, é quase aquela pergunta do “onde é que está o eu” dos budistas, como acontecia no Jesus Cristo Bebia Cerveja, sendo que a ideia de eu, naquele caso, tem uma explicação científica, a de que seria o nosso sistema imunológico a rejeitar tudo o que não tenha o nosso ADN e seria essa assinatura a determinar o nosso eu. Gosto de explorar isso, bem como a questão da memória, que é trabalhada num outro sentido: há uma pessoa que tem um problema patológico, mas há outra pessoa que também vive um pouco anestesiada e é como se não reparasse nas coisas. Num mundo de rotina, é assim, não sabemos o que é que almoçámos a semana passada, a menos que tenha sido um almoço extraordinário, mas isso já foge da rotina. Por isso há esses dois factores, que depois se relacionam com o carácter das personagens, uma que é afectada pelos grandes temas, outra que é afectada pelas pequenas coisas, alterações da rotina. A nossa memória e o modo como nos relacionamos com ela tem um pouco a ver com isto, ou seja, se eu estou muito focado na minha rotina e na manutenção dessa rotina, e se me sinto confortável nesse mundo, dou atenção a coisas pequeninas e esqueço todas as outras. Por outro lado, se só dou atenção às coisas muito grandes, também me esqueço do pormenor.

Tens dedicado parte considerável do teu trabalho literário a essa questão da memória, ao modo como a construímos e como ela nos constrói e desconstrói, como a ficcionamos. Em Flores acompanhamos um narrador que assume como missão reconstruir a memória alheia, fazendo dentro da narrativa aquilo que tens feito no teu trabalho literário.
Sim, e tem muito que ver com o valor da ficção nas nossas vidas, porque a memória está intrinsecamente ligada a uma perspectiva, e necessariamente é uma ficção. Não há aqui uma verdade objectiva e é por isso que continuamos a escrever livros de História sobre os mesmos séculos. Costumo comparar com os comentadores de futebol, que têm ferramentas impressionantes para ver o detalhe: se tivermos três pessoas de três clubes a ver a mesma jogada, de todos os ângulos e com várias câmaras, temos três opiniões muito diferentes. É o que nos acontece na vida, porque a memória não são factos, é uma construção que é feita e não apenas por nós. Acreditamos ser a pessoa mais capaz de nos definir, a que melhor nos conhece, mas a verdade é que isso não acontece assim, nem sequer fisicamente. A maior parte das pessoas conhece a minha nuca melhor do que eu. Agora que estou careca já nem vou ao barbeiro, não tenho o espelhinho que ele me colocava atrás para ver como tinha ficado, e por isso não vejo a minha nuca. A parte psicológica é muito mais complexa, como se percebe. Há um livro de Pirandelo, Um, Ninguém e Cem Mil, que mostra isto de uma maneira muito clara, porque somos milhares de pessoas conforme a interpretação e as pessoas que temos à volta. A nossa ideia de nós próprios é também uma construção, e muitas vezes demasiado benevolente. Agrada-me esta ideia de que quase tudo é ficção.

Este é um narrador que expressa muitos comentários de ordem moral (não moralista). Quiseste fazer dele uma espécie de arauto da consciência, enquanto vai aprendendo com os seus erros?
Sim, mas este é um narrador que também tem muitas falhas e que vai tomando consciência de algumas. Acho que não escreveria se não tivesse esse lado mais reflexivo sobre o mundo e sobre as coisas. Interessam-me pouco as personagens que sabem pouco sobre o que se passa à volta delas; acaba por não ser muito interessante aquilo que elas possam dizer. Gosto das personagens que pensam, e quando elas não pensam, o narrador tem de intervir para pensar por elas, ou para ter uma interpretação um pouco mais complexa, para que o livro não seja apenas escravo de uma história, sem mais nada. Não tenho nada contra e há livros lindíssimos que são apoiados apenas na narrativa, tal como existe o oposto, livros sem narrativa que têm um trabalho de linguagem incrível, mas o que me interessa é conseguir encaixar tudo isso num livro.

Em Flores há algumas referências concretas à situação política e social portuguesa; a crise, os impostos, Passos Coelho… Não temes que daqui a alguns anos isso torne opacas algumas passagens?
Espero que o meu livro dure mais tempo do que Passos Coelho, e por isso não usei mesmo o nome. Tenho algum pudor, porque acho que ele não é muito importante. O Hitler sim, é tão mau que espero que as pessoas se lembrem dele por muito tempo, mas há outros que nem vale a pena.
Mas a referência vai ficar desactualizada, sim. Tento não abusar disso, para não ser como metade de “Os Miseráveis”, cheio de nomes que já não nos dizem nada, mas se puder de vez em quando usar uma ou outra coisa que só terão sentido agora, acho que vale a pena.

A figura de um golem, o homúnculo da tradição judaica, assume um papel essencial nesta narrativa. Foi o potencial de guardador de memória que te fez escolhê-lo ou houve alguma atracção por esse carácter de homúnculo, facilmente comparável ao de monstro?
Houve, sim, e também porque esteve muito ligado ao nazismo. Na altura havia quase essa esperança mística de criar um golem que combatesse os nazis, mas acho que, neste caso, é assim uma espécie de pressão, seja a Deus ou aos homens, de mostrar as monstruosidades que fazemos para que alguém faça alguma coisa – este alguém serão as pessoas, se não acreditarmos em Deus, ou as pessoas e Deus, se formos crentes.

Este golem, que é construído com pedaços de notícias de jornal sobre as grandes catástrofes e o mal que fazemos uns aos outros, tem um certo paralelo com o que faz o narrador, que constrói a memória do senhor Ulme recolhendo aquilo que serão as suas lembranças perdidas.
Quando recriamos uma pessoa, ou quando lhe damos essa memória, é como se estivéssemos a dar-lhe uma alma, uma vida, e não deixaremos de ter uma vida com muitas maldades e muitas tragédias, porque as nossas vidas também são feitas disso. A ideia de golem é tão rica que nos serve para a criação do outro, através da memória ou não, mas também para a criação de uma espécie de pressão, e por isso as pessoas o temem tanto: quem vive na rotina não gosta de ser incomodado pela morte de outras pessoas, pela tragédia. Quando morrem vinte pessoas juntas é uma notícia, mas quantas pessoas morrem diariamente com fome? É preciso que haja mais gente a morrer ao mesmo tempo, porque isso é que é uma alteração da rotina e nós já temos por rotina que o mundo não é justo, e aceitamos isso de uma maneira mais ou menos plana.

Quando o golem aparece, as pessoas ficam muito agitadas…
Sim, é a ideia de fim do mundo. As pessoas têm medo que o mundo acabe, um pouco como a imagem de Sodoma e Gomorra, ou o dilúvio, portanto, que de repente tudo se esfume.

…mas rapidamente essa agitação desaparece. A dada altura lê-se “passadas umas horas, já nem queriam saber, até achavam piada ao monstro, o mesmo que momentos antes ameaçava trazer-lhes o fim do mundo.”
É um pouco o que acontece no facebook. Indignamo-nos durante dez minutos, escrevemos um comentário e passado pouco tempo já estamos a almoçar, a conversar sobre futebol, ou as tricas da política, que preenchem mais o nosso discurso do que os valores essenciais da política. Então, uma coisa que podia ser tão poderosa, como um golem, acaba por ter uma vida muito curta. E voltamos ao problema da memória, que é muito rápida a apagar.

Voltemos à ideia de redenção, que é transversal aos teus livros, ainda que não em modo “final feliz”. As pessoas vivem e morrem, vivem a paz e a guerra, a abundância e a miséria, como se existissem numa espécie de inevitabilidade, mas ainda assim podendo contrariar essa inevitabilidade.
Sim, apesar de vivermos este jogo viciado em que somos perdedores, temos esperança e arranjamos imensas maneiras de dar a volta à questão, de ser optimistas, procurar a felicidade. E às vezes encontramos, de maneiras inusitadas ou banais, como a dedicação a uma pessoa, um filho, um amigo, um amor, uma ideia. E isso dá-nos a ilusão de que nos vamos trocando, que não desaparecemos. Vamo-nos trocando por uma ideia, por uma pessoa. O que sou vai sendo transferido para o que está à minha volta. O final tem a ver com o momento em que interrompemos a história, que pode ser no momento em que eles casam e são felizes para sempre ou quando já estão a divorciar-se. Depende, porque a vida é realmente feita de momentos, altos e baixos, e portanto podemos terminar num sítio ou noutro. Eu gosto que haja a sensação de que as duas coisas co-existem, por isso gosto de finais agri-doces.

Sara Figueiredo Costa
(entrevista publicada no Ponto Final, Set.2015)

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