Marco Paulo É a Minha Religião

marcopaulo

Pepedelrey e João Tércio
Marco Paulo É a Minha Religião
El Pep

Quem assistiu a algum dos concertos do projecto Deixem o Pimba em Paz, onde Bruno Nogueira e Manuela Azevedo, rodeados de um lote de músicos de excepção, reinterpretam o repertório a que chamamos pimba sem dores de alma elitistas, encontrará no livro de Pepedelrey e João Tércio um claro ponto de contacto. Nada neste livro depende desse concerto, naturalmente, nem sabemos se os autores estabeleceram esse diálogo, mas Marco Paulo É a Minha Religião surge numa altura de revisitação de um certo cancioneiro, nem sequer muito homogéneo, por parte de uma nova geração de artistas. Do regresso de José Cid às referências a Tony de Matos, este livro integra essa revisitação recente, multi-disciplinar e desempoeirada, assumindo um património comum que a dita alta-cultura finge ignorar e trabalhando-o das mais diversas formas.

Um conjunto de histórias curtas assinadas pelos dois autores socorre-se das letras de canções de Marco Paulo para construir universos narrativos marcados pelo delírio visual (desde logo anunciado na capa, psicadélica e paródica, de Marta Teives) e pela livre associação de ideias, umas vezes usando a literalidade, outras extravasando os sentidos líricos, como acontece quando duas girafas assumem protagonismo em “Uma lágrima, um beijo e uma flor”, ou quando “Taras e Manias” anda à volta de uma pasta de dentes da marca Bateman. Nos traços de Pepederey e João Tércio, o primeiro mais fluido no movimento, o segundo incorporando pequenos apontamentos visuais assumidamente humorísticos, Marco Paulo ganha foros de referência pop. Nem sempre as narrativas ultrapassam com sucesso a leitura mais rasa e meramente cómica das letras musicais, ainda que o façam de modo notável em momentos como “Ninguém Ninguém”, mas este volume oferece um olhar sólido e descomplexado sobre a reinterpretação de um imaginário que é, queiramos ou não, parte integrante da nossa memória comum.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista E/Expresso, Junho 2016)

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