Acertar contas com a História

Cumprindo a sua quinta edição, o festival literário de Macau apresentou este ano um programa extenso, com perto de meia centena de autores convidados. Como tem sido regra em edições anteriores, os livros são um ponto de partida para o mundo, e não um terreno fechado, pelo que a música, o cinema, a gastronomia e a ópera foram temas e linguagens igualmente abordadas ao longo dos quinze dias de programação.

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No primeiro dia do Rota das Letras/Script Road deste ano, Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, foi um dos momentos em destaque na programação, tendo sido exibido ao público de Macau numa das salas do Galaxy. O filme tem vindo a cumprir um percurso assinalável desde que foi terminado, em Abril do ano passado. Seleccionado para a Berlinale, não mereceu a distinção de um prémio no festival, mas reuniu um conjunto de críticas que o colocaram no centro das atenções cinéfilas. Depois da exibição em Berlim, foi Macau a segunda cidade a poder assistir a Cartas da Guerra, que só estreará nas salas portuguesas em Setembro, estando agendada, até lá, pelo menos a passagem pelo Festival de Cinema de Hong Kong, ainda este mês.

Cartas da Guerra parte de um conjunto de cartas que António Lobo Antunes, alferes médico destacado em Angola durante a Guerra Colonial, envia para a sua mulher, Maria José, em Lisboa. Essa matéria-prima de que Ivo Ferreira partiu para construir o seu filme é pública, estando disponível no livro Regressos Quase Perfeitos, de Maria José Lobo Antunes (Tinta da China). Em várias entrevistas, o realizador tem contado que ouviu essas cartas pela primeira vez na voz da sua própria mulher, Margarida Vila-Nova (a actriz que interpreta Maria José no filme), enquanto esta as lia em voz alta para o filho, ainda à espera de nascer. Terá sido nesse momento que Ivo Ferreira começou a estruturar as ideias que haveriam de permitir este filme, mas não foi aí que nasceu o seu interesse pelo tema da Guerra Colonial, como contou à Blimunda numa entrevista realizada durante o Rota das Letras. Era um tema que me interessava tratar, mas nunca tinha arranjado forma de abordar o assunto. Quando li as cartas, pareceu-me que de facto era uma história fantástica para se contar. Adoro terrenos pantanosos e sou especialmente interessado por este período, que acompanha os anos antes de eu nascer. Curiosamente, quando andei na escola, eram os anos menos tratados. Chegava-se ali um bocadinho antes de 1974 e vinham os cravos, virava-se a página, doze estrelinhas amarelas num fundo azul e estava dada a matéria. Eu sabia, até pela relação com os meus pais, com as pessoas que rodeavam os meus pais, e também por razoes políticas e ideológicas, que com certeza não era só aquilo que estava nos livros de história, e que haveria outras coisas para além daquilo. Sobretudo, parecia-me estranho que não se falasse do assunto e se calhar foi por isso que fiquei um bocado refém desta época. Continuo muito interessado, ainda que entretanto possa mudar o meu foco, mas para já, estou a trabalhar nisto, pelo menos para os próximos dois filmes. É verdade que, apesar do que disse, temos a história da Guerra Colonial abordada no cinema, com o Non ou a Vã Glória de Mandar, o 20,13, a A Idade Maior… Foi um tema já tratado, mas apesar de tudo, para a importância que tem, é um tema pouco tratado, até na literatura. Agora têm aparecido alguns livros, como o da Dulce Maria Cardoso [O Retorno], por exemplo, mas não há assim tantos. Que raio de país nós somos que ninguém quer tratar das coisas, olhar para elas? Agora quero fazer uma coisa sobre as FP-25 e toda a gente me diz, “isso, não!”.

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Não será a primeira vez que a Guerra Colonial é abordada no grande écrã, mas este não é exactamente um filme de guerra, ainda que parte considerável das imagens que o compõem reflictam esse cenário. Cartas da Guerra conta uma história de amor e fá-lo com a consciência de que a intensidade do que conta abarca o muito que há à sua volta, um contexto, um país vivendo sob ditadura, um sentimento de injustiça relativamente à guerra que quase ninguém quis travar, as pequenas mudanças que o mundo não evita e que arrastam quem nele vive sem olhar a amores ou desamores. A partir de um conjunto de cartas onde a relação amorosa entre duas pessoas é a linha força, o filme constrói uma história complexa, com várias linhas de leitura compondo-se em camadas sucessivas. Transformar a matéria-prima das cartas do alferes António Lobo Antunes numa história com estas características não foi imediato, mas para Ivo Ferreira foi um processo muito lógico. Quando li o livro, na minha cabeça foi muito clara a estrutura narrativa que ele tinha, embora a própria personagem mude de ideias, intenções. Isso pode parecer confuso, mas houve logo algumas coisas que ficaram logo muito claras. Primeiro havia uma questão que era evidente para mim: as cartas começam num barco, numa ida para Angola, uma espécie de prelúdio. Há uma viagem no início. Havia três aquartelamentos e depois uma viagem final. À partida, tinha uma espécie de uma estrutura em três actos. Por outro lado, começamos o filme com um personagem que embora seja eventualmente magnânimo, não tem uma base política… a grande preocupação dele é onde vai ficar o retrato do James Joyce e não, de início, a reflexão sobre a própria guerra. E há o lado do deslumbramento com África, o contacto com a cultura, as paisagens, as pessoas, que é evidente e muito marcante para ele. Depois há um lado que, de repente, começa a surgir, um posicionamento político que começa a formar-se, e passa a haver um inimigo que é claro, um Salazar, um Estado, um Governo. É nessa altura que ele diz claramente “começo a perceber que não posso continuar a viver sem ter uma posição política na vida; o ponteiro do relógio caminha de dia para dia para a esquerda”. Torna-se bastante evidente que aquele personagem tem agora outro tipo de preocupações, e há esse inimigo, o Estado que o empurrou para ali, a ele e a todos os outros, para uma guerra estúpida e injusta e sem sentido. E depois há uma outra fase em que o problema já é deles com eles, deixa de ser Portugal e passa a estar dentro deles, pelo que sofreram, pelo que passaram durante este processo e, como o próprio personagem diz, pelo que morreram durante este processo, com as suas modificações interiores. Para mim, a estrutura dramática estava claramente delineada desde o início.

Essa mudança que o personagem principal experimenta, e que se revela nas cartas que continua a escrever para a sua mulher, é uma das linhas de força de Cartas de Guerra, o movimento de um homem em direcção ao mundo, afastando-se do foco em si próprio e nas suas comiserações. Há um momento em que ele deixa de se queixar do feijão ao almoço, depois da cena do helicóptero, e a carta seguinte diz qualquer coisa como “não te preocupes comigo, tudo ficará bem”. E isso é o momento assinalável, quando ele está mesmo em baixo e cresceu como ser humano, e em vez de se lamentar, de repente toma uma posição de força. É um momento do crescimento dele que aproveitei claramente, e que é assinalável. Há aquela luz que sai atrás dele, a luz do sol, e que surge com a carta que diz “lembra-te, até ao fim do mundo”. O filme está cheio destas coisas simples, clássicas. Eu não sou muito ligado aos simbolismos, gosto mais dos significantes do que dos significados, é com isso que trabalho e não para as coisas terem um significado. A minha matéria de trabalho são os significantes e depois, cada um faz o outro trabalho, o da leitura.

Trabalhando com material biográfico, e com material biográfico que pertence a alguém com tanto reconhecimento público como António Lobo Antunes, terá sido complexo o processo de criar uma história que não dependesse disso, desse reconhecimento ou de uma identificação imediata e unívoca. Não há, em Cartas de Guerra, nenhum gesto que force a relação entre essas duas entidades, a do alferes que escreve as cartas e a do escritor que hoje conhecemos. Naturalmente, também não há um esforço para esconder os factos: o personagem principal passa parte do seu tempo livre ocupado a escrever, e é perceptível o esforço e a vontade de que essa escrita venha a ser importante, relevante no panorama literário. Neste equilíbrio que assume, sobretudo, a vontade de fazer um filme, contar uma história e respeitar o material a partir do qual ela se estrutura, Ivo Ferreira não deixou de enfrentar os problemas inevitáveis que uma matéria-prima tão íntima coloca (seja ela pertença de uma figura pública ou de um desconhecido). É muito complicado, porque estamos a falar de um grande escritor, conhecido e reconhecido… Tive de me apropriar do filme, e daí também este tipo de utilizações do preto e branco, que é um modo de criar um filtro entre mim e aquele material biográfico. Não peguei na intimidade de ninguém, peguei num livro que estava publicado, e por vontade das pessoas intervenientes. Mas não deixo de ter muito pudor com aquele material e foi essa uma das razões pelas quais tive de criar estes filtros. Construi o personagem de que eu gosto, não estou a fazer nenhuma colagem… O meu problema, quando construo um argumento, um filme, é defender um personagem, seja ele qual for. Tenho de construir um personagem que tenha dimensão, que não seja plano, e eu tenho de gostar dele. Foi assim que o desenhei. Haveria outras coisas, com certeza, nas cartas… Descontextualizando, ou mesmo contextualizando de uma forma hipócrita, podes fazer com qualquer matéria o que tu quiseres.

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Se o alferes-médico António Lobo Antunes, interpretado pelo actor Miguel Nunes, é o personagem central destas Cartas da Guerra, Maria José, numa interpretação de Margarida Vila-Nova, é o seu reflexo num outro espaço, e também num outro tempo, longe do cenário de guerra, sem os ritmos definidos pelos tiros, pelo medo, pela necessidade de sobrevivência, mas ainda assim vivendo em suspenso como se também estivesse ali, em Angola, num aquartelamento. Quando Maria José surge no écrã, a sua presença é apenas física, sem falas. Quando se ouve a sua voz, ela não coincide com os movimentos da personagem, deambulando pela sua casa, em Lisboa, mas antes com o texto das cartas que vão chegando pelo correio. Terá sido um desafio grande, este de colocar uma actriz no écrã sem a sincronia habitual entre imagem e voz? O desafio maior é este: temos uma acção temporal, uma descrição, e depois a carta tem de ir a voar até outro sítio. Nesse tempo, é como se houvesse um contágio, como se ela pudesse quase sentir as coisas à distância. Muitas vezes é ela a ler, como se fosse ele, e às vezes é ele. Outras vezes é uma espécie de personagem intermédio. Há momentos em que ela lê e já sente como ele, e isso aí é um desafio, mas o desafio maior foi para os actores. Eu digo os ‘disparates’ e eles é que têm de os resolver, se a tanto os ajudar o engenho e a arte, como se costuma dizer. No caso da Margarida, nesse aspecto, e em tantos outros, é fantástica. E tem outra coisa, que é o facto de ser tecnicamente fabulosa, porque consegue repetir partes de um take exactamente da mesma forma, o que ajudou muito num trabalho como este.

A fechar Cartas da Guerra, há um final que resolve as linhas narrativas construídas ao longo do filme, não deixando de colocar questões sobre o caminho posterior das personagens. A narrativa termina, mas fica em aberto o futuro, como talvez sempre fique. Para Ivo Ferreira, não se trata de forçar um argumento posterior ao da história que quis contar, mas antes de concluir um processo sem apagar as suas leituras possíveis. Há aqui o drama daquele personagem, mas também o drama de um país e até da humanidade, porque as guerras são dramáticas para a humanidade e nós continuamos a brincar a isto porque há quem enriqueça com o assunto. São coisas que me agrada mais deixar assim… mas isso da narrativa aberta, sempre com parcimónia! Pelo menos na minha cabeça, a história tem de estar resolvida. Ou o corte cria um significado, ou então não faz sentido. Na verdade, as primeiras versões de argumento tinham no fim uma ideia que não era minha. Havia um filme em super-oito, com a Maria José, quando foi com a filha, bebé, para Marimba, que era um sítio onde já era possível estar com segurança (e os oficiais tinham direito a levar as mulheres). Quando ela foi, cortou o cabelo, porque sabia que seria mais fácil, e a descrição que eu tenho desse filme é fantástica: era ela com um vestido muito elegante, daquela época, e uns sapatos de salto alto, no meio da lama, durante um jogo de futebol, e estaria o alferes-médico António Lobo Antunes à baliza. Houve a hipótese de usar esse filme no meu filme, mas foi mesmo no início…Depois, as coisas mudaram. Sobretudo, porque a realização do filme se estendeu por muito mais tempo do que aquele que se previa inicialmente. Foram cinco anos, mas esteve parado quatro. Nós começámos a filmar em Abril do ano passado e em Novembro o filme estava seleccionado para Berlim. Somos rápidos a filmar, mas temos é de filmar. Parados, não dá, e sem dinheiro também não. O ICCA não teve dinheiro e paralisou tudo durante muito tempo… Enfim, na versão inicial, havia então a hipótese de usar esse filme, mas depois faleceu a pessoa que o teria, e a própria ideia deixou de fazer sentido para mim. É uma coisa particular neste projecto, o de se tratar de uma matéria com gente viva, mas ao mesmo tempo, sobre a qual ninguém quer falar. Muitas das pessoas que estiveram na guerra não falam disso nem às suas mulheres. Felizmente, falaram comigo. E acho que se é uma coisa da qual ninguém quer falar, é uma época e um contexto que têm de ser explorados, até porque as pessoas começam a desaparecer, naturalmente. Se delas ficar uma parte da sua história, talvez o desaparecimento não seja total.

Texto de Sara Figueiredo Costa. Fotografias de Eduardo Martins (com excepção da primeira, um fotograma do filme).
(publicado na Blimunda #46, Março 2016)

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