A quimera do autêntico nos hutongs de Dazhalan

 

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I

Saindo do metro em Qianmen estamos num dos topos da Praça Tiananmen, aquela em que nada terá acontecido num certo 4 de Junho. Lá ao fundo, o frontão vermelho anuncia a Cidade Proibida. Deste lado, o início de uma longa avenida onde carros e motas e pessoas competem pelo momento de usar o asfalto. Daria para vir a pé do outro lado da praça, com tempo e músculos, mas a prudência recomenda que se poupem as pernas para o labirinto dos hutongs, uma espécie de vilas lisboetas, ilhas portuenses e todos os possíveis equivalentes lexicais em todas as línguas do mundo, que sempre se viveu em torno de pátios, ruas emaranhadas, casas humildes ou mais sumptuosas onde os vizinhos se conhecem pelo nome.

Desce-se a avenida Qianmen e há hutongs de ambos os lados, mas o que aqui nos trouxe foi o livro de Michael Meyer, The Last Days of Old Beijing (Walker & Company, 2008), pelo que é preciso atravessar a avenida. Momento de adrenalina, porque os carros param nos semáforos, mas as motas e as bicicletas nem por isso. Primeira razia de uma mota, corpo rapidamente chegado às pessoas que já atravessam e ei-nos numa das entradas possíveis para Dazhalan, o hutong para onde Michael Meyer se mudou em 2005, contando já com uma década a viver na China.

Um norte-americano em Pequim não será coisa tão exótica como se poderia imaginar, sobretudo em décadas mais recentes, mas um norte-americano que sabe falar mandarim, vivendo num bairro tradicional no centro da cidade, convivendo pacatamente com os seus vizinhos, e ainda por cima dando aulas de inglês às crianças da escola local, é capaz de ser pouco comum. O que Meyer nos oferece no seu livro começa por ser a visão de alguém de fora, mas rapidamente se transforma no relato de alguém que vive na cidade e com ela se relaciona como qualquer habitante de pleno direito. Quanto aos “últimos dias” do título, digamos que são o resumo possível das muitas mudanças que a cidade vive, encontrando no hutong um eco particularmente dramático e na escrita de Meyer um atento observador.

II

Ainda na avenida, as lojas de recordações para turistas perfilam-se com as suas bandeirinhas, animais do zoodíaco chinês e pulseiras de jade que obviamente são de plástico. O marketing é agressivo e assim que alguém se aproxima de uma montra, há funcionários zelosos oferecendo pechinchas, dois signos pelo preço de um, meia dúzia de pulseiras, um prato com a cara de Mao. Para tentar encontrar o hutong sossegado que Meyer descreve é preciso avançar. Sem muitas certezas sobre se serão estas as ruas do livro, entra-se no hutong e percorrem-se vários metros até o movimento dos turistas ficar para trás. Os restaurantes mudam de preço, somem-se as tabuletas escritas à mão num inglês periclitante e deixamos de ver as bancas de alfarrabistas que vendem livros do tempo da Revolução Cultural a preços de ouro. Os transeuntes olham-nos com indiferença, vendo mais um turista que se aventurou fora das ruas devidamente preparadas para mostrar o hutong aos forasteiros. Alguns sorriem e dizem coisas que não sabemos entender. Num pequeno estabelecimento de noodles caseiros, e depois de tentar explicar que quero mesmo comer uma tigela de noodles com tripas igual à que aquelas pessoas comem na mesa da entrada, com picante e tudo, abro o livro de Meyer e tento fazer coincidir o seu mapa desenhado à mão com o mapa que tenho no guia da cidade. Tarefa inglória. Meyer traduziu o nome das suas ruas para inglês, desenhando toscamente a meia dúzia de lugares aos quais se refere numa certa passagem, e o meu mapa está em chinês, com traçado complexo e profissional assegurado por um qualquer programa informático. Releio algumas passagens, procurando pontos de referência, mesmo arriscando perdê-los entre o movimento de mudança constante que o hutong tem sofrido. A casa de banho pública onde Meyer se cruzava com os vizinhos, e onde foi conquistando o seu respeito pelo facto de viver exactamente como eles e, ainda por cima, falar chinês, pode ser já na rua de trás. A loja de telemóveis de um dos seus vizinhos já fechou, isso ainda lemos no livro, mas talvez pudesse ter sido neste cruzamento, na rua paralela à da casa de banho comunitária. Caminho em direcção à rua de trás, mas afinal é um beco e não leva a lugar algum. Duas horas mais tarde, abandono a ideia de fazer coincidir traçados e concentro-me em procurar no bairro de hoje os ecos do bairro de Meyer.

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III

O hutong é um emaranhado de ruas, lugar-comum fácil de constatar, mas é sobretudo um emaranhado de fios eléctricos que pairam no ar como quimeras, ligando casas e postes num novelo à prova de tudo. Numa passagem do seu livro, Meyer descreve os tuk-tuks que, de quando em vez, alcançam ruas mais improváveis e a disponibilidade para comunicar com os forasteiros que os seus vizinhos demonstram. O hutong de Meyer é um mundo em derrocada. As mudanças urbanísticas que varrem Pequim nesses anos que antecedem as Olimpíadas de 2008 chegaram a Dazhalan e preparam-se para demolir casas, expulsar moradores para o quinto anel da cidade, rasgar o hutong com novas ruas. Tudo em prol do bem comum, claro, e da modernização. A sensação é de tristeza na vizinhança, mas é sobretudo de impotência. Meyer descreve uma espécie de mão invisível que pinta nas paredes o carácter chai, anunciando que casas ficam e que casas se desfazem, sem que haja grandes hipóteses de um diálogo negocial com os responsáveis. Os responsáveis são etéreos, uma entidade colectiva que zela pelo bem comum mas que não tem um rosto. O hutong que visito mais de dez anos depois é já um destroço daquele que se lê em The Last Days of Old Beijing. E no entanto, ele move-se…

Dazhalan terá nascido com esse nome por volta do século XV, um bairro que já existia mas que ganhou então portões nos seus limites, fechados durante a noite, protegendo os estabelecimentos comerciais dos ladrões. Como explica Meyer, o bairro “tornou-se o distrito do entretenimento, das artes e das antiguidades da capital. Especialidades de Pequim, como o pato assado, a acrobacia e a ópera floresceram aqui. Algumas ruas cheias de ourives, bordadeiras de seda e calígrafos, outras com palcos, bordéis e casas de ópio.” O bairro permaneceu, dando o nome a uma das ruas que o atravessa. Em 2005, quando Meyer começa o seu livro, Dazhalan não é bem um hutong, mas mais de uma centena deles: “Os 114 hutongs de Dazhalan acolhem mil e quinhentos negócios, sete templos e três mil casas. A maioria são casas de piso térreo que foram sendo acrescentadas ao longo do século XX . É o espaço urbano mais denso de Pequim, e talvez do mundo. Com o mesmo tamanho que a Cidade do Vaticano (população 557), cada meia milha quadrada de Dazhalan tem 57.000 habitantes, incluíndo um forasteiro.”

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IV

Mais de dez anos passados sobre esta descrição, Dazhalan ainda resiste. Estará diferente, como sempre vão estando os lugares à medida que o tempo se acumula. Apesar disso, é fácil suspeitar que as mudanças dos últimos anos foram mais intensas, menos orgânicas, impostas num curto período e logo concretizadas. Nisso como em tantas outras coisas, Pequim não é diferente de qualquer outra grande cidade do mundo. Grandes eventos como os Jogos Olímpicos tendem a mudar os traçados urbanos, ignorando estados de alma de quem vive nas ruas assinaladas para a mudança. Quem aqui viesse pela primeira vez sem nunca ter lido o livro de Michael Meyer poderia mesmo pensar que Dazhalan sempre foi assim. Tomaria umas notas sobre a permanência, a tradição, as casas que se mantêm e sairia feliz e enganado de um autêntico hutong de Pequim. Não é a autenticidade – coisa de semântica maleável conforme os gostos e as intenções, e talvez coisa pouco rigorosa, acima de tudo – que se lamenta quando se olha o bairro com um pouco mais de atenção, notando a enorme avenida a rasgar uma vizinhança ao meio. O que se lamenta é a imposição, o ignorar as pessoas que habitam um território quando chega a altura de redefinir esse território, o quebrar de laços sociais e de proximidade que não estavam a degradar-se. E só se lamenta porque um norte-americano que fala chinês decidiu, um dia, que viver num hutong podia ser um bom plano de vida. The Last Days of Old Beijing não é um livro saudosista nem um daqueles libelos que prega a ‘autenticidade’, a ‘tradição’, esquecendo que natural é as pessoas quererem ter água e luz eléctica e um mínimo de condições e dignidade. Pelo contrário, é um livro que regista sobriamente o ar do tempo, um tempo em que tudo se decide mudar à boleia de umas Olimpíadas que hão-de ser a grande revolução da nova China no modo como o resto do mundo a vê. E é, sobretudo, o livro de alguém que viveu realmente um lugar, habitando-o plenamente e deixando-se habitar por ele, sempre com a certeza da perenidade de quase tudo, recolhendo o que não pode ser perdido, consolando os que já não ficarão para continuar a história. Hoje, Dazhalan é bairro com direito a folheto turístico, vendendo essa mesma ideia de autenticidade a que Meyer nunca cede. Outros hutongs tiveram destino bem diferente, com quase todas as suas casas destruídas ou adaptadas para parques de indústrias criativas e hotéis. Num ou noutro, derrubaram-se casas muito antigas e construíram-se novas, imitando a traça e os materiais que lá estavam antes, uma réplica do tal autêntico a passar por verdadeiro autêntico e a baralhar tudo. Vale a pena visitar Dazhalan, claro, mas conhecê-lo antes pelas páginas de Meyer garante uma outra visita, talvez mais atenta aos pormenores que podem dar do lugar uma outra narrativa. Não é preciso dizer que nem por isso é uma visita ‘mais autêntica’ e que a autenticidade é capaz de ser uma farsa.

Sara Figueiredo Costa, em Pequim
(publicado no Parágrafo, Ponto Final, Julho 2016)

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