Bagagem de Mão: Um palco para Macau

A crónica de Novembro no Ponto Final, de Macau:

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Quando as luzes se apagam, palco e plateia são espaços mergulhados no nevoeiro. Ao fundo, duas ou três luzes vermelhas parecem indicar pontos de chegada. Quem já desembarcou em Macau a horas nocturnas reconhece o momento e vê neste palco do Teatro Meridional uma mimese fiel dessa chegada no ferry, a água do Rio das Pérolas a tocar a névoa baixa, as primeiras luzes dos casinos a anunciarem-se lá ao fundo. Não há subida do pano, porque intérpretes e espectadores estão já no mesmo barco, que depois há-se ser templo, bazar, beco, casino e Porto Interior. «Contos em Viagem – Macau» é o quarto espectáculo que o Teatro Meridional leva à cena num projecto que pretende criar uma dramaturgia a partir de textos não teatrais do universo da língua portuguesa. Depois de duas passagens pelo Brasil e uma por Cabo Verde, chegou agora a vez de Macau.

Criar um espectáculo cénico a partir de textos dispersos é um risco que por vezes desaba na fragmentação, algo que nunca sucede neste caso. Usando textos de Camilo Pessanha, Fernanda Dias, Henrique de Senna Fernandes, Fernando Sales Lopes, Maria Ondina Braga ou Yi Lin, entre muitos outros, Natália Luiza criou uma narrativa que não força ligações, mas que alcança, em cada quadro, as secretas afinidades em torno de uma cidade e da sua respiração. O risco era ainda maior pelo facto de em cena estarem apenas um actor, Romeu Costa, um músico, Rui Rebelo, e uma bailarina, Margarida Belo Costa. Quem não viu pode estar a imaginar a música como pano de fundo, a dança como acessório exótico, o actor a desfiar frases sem outro eco que não o da sua voz… Nada disso acontece. Os três elementos são intérpretes plenos, cada um recorrendo à sua expressão, e o que temos é uma narrativa que tem na música, na dança e na interpretação teatral os modos de se contar. Da ideia de desterro para quem chega de paragens europeias às muitas definições de identidade, das velhas ruas do bazar ao carrossel imparável dos casinos, também não faltam as referências ao quotidiano, às dúvidas perante o outro – que em Macau nunca é bem outro, ou apenas outro, mas pelo meio há idiomas que não se encontram, equívocos que não se desfazem e lá vem a alteridade alimentar a discussão –, às histórias mais ou menos caseiras que foram formando o lastro narrativo de um lugar. O ponto de vista é o de portugueses e macaenses, sobretudo, mas no modo como se olha há espaço para quem olhe de volta e também os chineses de Macau têm voz, e sobretudo corpo, neste palco. Pelo meio, há cenas memoráveis, como o belo encontro entre Vong Mei e o espírito por quem se apaixona, a partir de um conto de Deolinda da Conceição, ou o diálogo hilariante entre Clara e João, tirado de uma das «Histórias de Macau», de Altino do Tojal, onde a exibição do preconceito ridiculariza para a posteridade quem dele sofre.

Em português, quase sempre, mas também em patuá (e até com uma ou outra palavra em cantonês), «Contos em Viagem – Macau» esteve em cena durante quatro semanas, no Teatro Meridional, em Lisboa, e fez o seu percurso com o impacto possível numa cidade onde talvez aconteçam demasiadas coisas – ou talvez haja pouca gente a falar sempre das mesmas, está por descobrir. Pode ser que a ideia de viagem se entranhe um pouco mais neste projecto e o Teatro Meridional possa embarcar até esse lado do mundo. Seria uma pena se este espectáculo não chegasse a um qualquer palco de Macau.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, Nov.2016)

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