ENTRE DOIS SÉCULOS: CINCO EXPOSIÇÕES DE FOTOGRAFIA PARA VER EM MADRID

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 Robert Capa

A fotografia foi descoberta no século XIX, mas é no seguinte que a sua marca se torna parte essencial do nosso quotidiano. Em Madrid, cidade que acolhe os encontros de fotografia Photo España e onde a imagem fotográfica tem regularmente destaque garantido em museus e galerias, cinco exposições independentes parecem conformar uma constelação de imagens que dão a ver o século XX no seu esplendor de guerras, espectáculo, esperança e desilusões, mas que convocam igualmente uma reflexão sobre os ecos que de tudo isto chegaram ao novo século, aquele que vamos vivendo.

Fotografar o século

Sem as imagens que Robert Capa registou ao longo da sua carreira, o século XX que conhecemos seria outro. Boa parte das imagens mais icónicas do autor, entre elas as registadas durante a Guerra Civil de Espanha, foram feitas a preto e branco e esse é o registo que mais depressa associamos a Capa, mas o fotógrafo também trabalhou a cores e numa altura em que os primeiros rolos permitiram esta técnica. Na exposição Capa en Color, patente no Círculo de Bellas Artes, acompanhamos as primeiras experiências de Robert Capa com os rolos fabricados pela Kodak, acedendo a cartas e registos em que enviava, a partir dos sítios onde se encontrava em reportagem, as indicações para a correcta revelação dos negativos (nem sempre com resultados que considerasse satisfatórios).

As primeiras imagens a cores feitas por Robert Capa registam momentos de descanso das tropas norte-americanas e inglesas durante a II Guerra. Numa altura em que as fotografias de guerra se apresentavam com uma gramática visual definida pelo preto e branco – definição para a qual o próprio Capa contribuiu fortemente – Robert Capa explora um outro registo de guerra, associado ao ócio, à camaradagem entre soldados, aos momentos em que o cenário parece apenas um grande espaço de convívio entre gente fardada, criando uma outra narrativa que complementa a da frente de batalha.

Estâncias nos Alpes, pistas de corridas de cavalos, festas religiosas e populares em Itália ou cenários de filmes em rodagem são outros espaços e momentos em que Capa utiliza a cor para registar instantâneos que tiveram o seu lugar nas revistas e jornais onde colaborava, mas que poucas vezes foram vistos fora do contexto da imprensa. A fechar, as imagens captadas na antiga Indochina, cuja guerra Capa cobriu de muito perto. Foi aí que morreu, pisando uma mina enquanto avançava no terreno para fazer mais uma fotografia. Conta quem presenciou o momento que morreu com a câmera nas mãos, mantendo até ao fim a aura romântica que a posteridade e a qualidade do seu trabalho ajudaram a criar.

Gente que salta

Philippe Halsman nasceu em Riga, em 1906, tendo-se naturalizado norte-americano depois de uma errância atribulada por diferentes países europeus. Entre os muitos trabalhos fotográficos que realizou, assinou várias capas da revista Life, fotografou actores, presidentes da república de diferentes países, realeza, artistas, cientistas e quase todas as pessoas que hoje reconhecemos na história na sociedade do século XX. ¡Sorpréndeme!, exposição patente na Caixa Forum, reúne mais de trezentas fotografias de Halsman, mostrando o intenso trabalho na revista Life, imagens registadas em diferentes cenários e ocasiões e a série de fotografias de Salvador Dalí, com quem trabalhou intensamente ao longo de mais de três décadas.

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 Philippe Halsman

Halsman fotografou muito para a imprensa, efémera por natureza, mesmo que muitas revistas Life com trabalhos seus continuem a ser guardadas e revisitadas pelos seus felizes possuidores, mas editou também alguns livros, dois deles muito presentes nesta exposição. Jumpology reúne fotografias de centenas de pessoas que Halsman fotografou em algum momento, com a particularidade de todas elas fixarem o momento em que o retratado saltava. Quando iniciou este trabalho, o autor teve algumas indecisões como resposta, mas rapidamente o processo se tornou conhecido entre muitos dos retratados, que aceitavam, à margem da sessão fotográfica destinada a uma revista ou jornal, deixar-se fotografar enquanto saltavam. Philippe Halsman acreditava que no momento do salto qualquer pessoa revelava a sua verdadeira essência, sem pose, sem preparação prévia, e o resultado é uma galeria que inclui Nixon, Grace Kelly, Audrey Hepburn ou os Duques de Windsor. Inclui também Marylin Monroe, que inicialmente se mostrou pouco ou nada receptiva a esta ideia, acabando por protagonizar uma sessão de saltos fotográficos que rendeu centenas de disparos e algumas fotografias icónicas. Outro dos livros destacados na exposição é The Frenchman, uma série de retratos mostrando o rosto do actor Fernandel que compõem uma entrevista visual. Na página da esquerda, uma pergunta (por exemplo, “Nós, os americanos, somos contra o pecado. E o senhor?”), na da direita, a resposta em forma de expressão facial, não faltando ironia e algum sarcasmo.

Numa altura em que a generalização da televisão enquanto meio de comunicação de massas parecia ameaçar a fotografia, Philippe Halsman assumiu o papel de contrariar essa ideia, criando imagens fortes e capazes de se deixarem apropriar pelo público de modo tão intenso como as imagens em movimento que começavam a entrar diariamente em cada casa. À semelhança do que fez Jean Cocteau quando quis trabalhar com Serguéi Diáguilev, director dos Ballets Russos, e este lhe disse que para conseguir esse feito só teria de o surpreender (episódio que o fotógrafo citava abundantemente), Philippe Halsman conseguiu surpreender o mundo usando para tal o espaço da imprensa, onde as surpresas já eram curtas e efémeras. As dele, continuam com a mesma força do dia em que ganharam contornos a tinta sobre o papel.

A lente melancólica

Na Fundación Canal Isabel II, a exposição La Belleza del Cuotidiano mostra perto de duzentas fotografias de Robert Doisneau, seleccionadas pelos seus descendentes. A abrir o percurso expositivo, uma vitrine guarda a Rolleiflex que Doisneau utilizava para a maioria dos seus trabalhos, elogiando-lhe as qualidades e o facto de a sua utilização obrigar a um ligeiro baixar de cabeça que, quando se tratava de fotografar pessoas, podia funcionar como gesto de cortesia.

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 Robert Doisneau

As imagens mais icónicas de Doisneau marcam presença nesta exposição, entre elas a célebre fotografia do beijo entre um homem e uma mulher, registada em frente ao Hotel de Ville, em Paris, em 1950. Meio mundo reivindicou ser uma das metades desse casal aparentemente apaixonado, até ao momento em que dois actores confirmaram terem sido contratados para uma encenação fotográfica A revelação podia ter beliscado a força icónica da fotografia, mas não há como apagar da memória colectiva de uma imagem que se tornou símbolo do fim da guerra e da esperança sentida nesse momento.

O fim da II Guerra é, aliás, um dos momentos mais retratados por Robert Doisneau, ele próprio combatente na Resistência francesa. Depois de afastado dos combates, por invalidez, dedicou-se a retratar a guerra e, posteriormente, os momentos que, de um modo ou de outro, cristalizavam essa euforia sentida pela Europa e pelo mundo quando o conflito chegou ao fim.

Depois do percurso pelo preto e branco que atravessa os meados do século XX e que olha o quotidiano com a melancolia de quem procura imagens pouco óbvias e aquilo que o primeiro olhar pode esconder, uma série chama a atenção por fugir ao registo que mais imediatamente associamos ao trabalho do fotógrafo. As fotografias Palm Springs foram feitas na década de 60, numa temporada norte-americana que começou em Nova Iorque antes de se mudar para a Califórnia e para este espaço onde uma comunidade de reformados endinheirados vivia os seus dias de lazer longe da turbulência do mundo. A cores, Doisneau registou jogos de golfe, lanches à beira da piscina, bailes, quartos cheios de dourados e decorações kitsch, tudo sempre atravessado por uma espécie de tristeza colorida onde cada momento de festa parece encenado para o olhar benevolente do vizinho e não tanto o resultado de uma felicidade genuína. Algumas destas imagens foram publicadas na revista Fortune e a sua circulação terá ajudado a formar uma gramática visual, rapidamente apropriada pelo cinema e a televisão, em torno de uma classe social que habitava a América como se o mundo acabasse logo a seguir à mesa dos cocktails.

Gente no espaço

As fotografias feitas pelo norte-americano Bruce Davidson no bairro do Harlem, em Nova Iorque, nos anos 60, contribuíram definitivamente para uma discussão sobre o modo como o território que habitamos define a nossa vida e o olhar que os outros assumem sobre ela. Por trás de paredes onde a humidade ganha terreno, entre prédios pouco aconchegantes e ruas desorganizadas, a vida quotidiana mostra-se para a objectiva. Quartos pequenos e meticulosamente arrumados, cozinhas modestas com mesas onde se convive, mesmo quando a comida é pouca, espaços que teimam em ser vivos contra todas as probabilidades. Antes disso, já Davidson tinha fotografado os gangs juvenis de Brooklin, aproximando-se de tal modo do seu objecto que conseguiu imagens onde a falta de caminhos esmaga a possível violência, tantas vezes encenada.

Onde a lente de Davidson encontra a História dos Estados Unidos de modo mais intenso é na série dedicada aos direitos civis, registando manifestações, momentos onde a segregação racial imposta pelo Estado e abraçada pela sociedade é notória, situações em que alguns arriscaram a pele para que muitos pudessem viver com dignidade. As fotografias da imensa Marcha de Washington ou de Martin Luther King são disso exemplo, tanto como os retratos de manifestantes hoje desconhecidos cujo contributo foi igualmente essencial para a mudança que acabou por ser alcançada.

Fora dos Estados Unidos da América, Bruce Davidson fotografou em lugares como Espanha, Itália, México, França ou Reino Unido, sempre mantendo o foco nas pessoas que retratava e na relação destas com o espaço. As suas fotografias mais recentes parecem ter abandonado esse foco, centrando-se nas plantas, primeiro a partir de imagens do Central Park, depois detendo-se nos pequenos detalhes vegetais que se entrelaçam e organizam de um modo que, visto em grande aproximação, sugere as mesmas relações espaciais que interessaram o autor no início da sua carreira, agora quase metáforas de um gregarismo que talvez não seja apenas característica humana.

Confronto visual

As imagens dos refugiados que tentam sair de um lugar onde a vida se tornou demasiado agreste e alcançar qualquer outro ponto geográfico que lhes permita alguma esperança chegam-nos diariamente pelos écrãs mais ou menos móveis. É discutível se tal abundância de imagens ainda cumpre o propósito de informar, mobilizando o olhar, ou se já se tornou uma enxurrada que não temos como processar, tornando quem vê indiferente ao que vê. Do Médio Oriente ao México, do Norte de África ao Sudeste Asiático, as imagens repetem-se, mesmo que cada pessoa transporte apenas a sua própria história. A exposição Somos Migrantes, patente na Caixa Forum de Madrid, reúne trabalhos de váriosfotógrafos, instando o público a colocar-se na pele de quem procura abrigo longe de casa e enfrentando tudo.

Organizada pela associação EntreCulturas e pelo Servicio Jesuita a Migrantes do México e de Espanha, esta exposição mostra imagens registadas na fronteira entre o México e os Estados Unidos da América, nos pontos onde quem foge do Norte de África procura entrar em Espanha, nos muitos focos de diáspora forçada que espalham as vítimas da guerra na Síria pelas armadilhas do Mediterrâneo e pelas barreiras com que a Europa se fecha sobre si mesma.

Borders, uma série assinada pela fotógrafa Monica Lozano recria as histórias de alguns refugiados. São as únicas fotografias encenadas, feitas em estúdio, e acabam por ser as imagens mais desconcertantes desta mostra. A autora conta a história de cada um dos refugiados que fotografa recorrendo a elementos que integraram as suas tentativas de fuga de um lugar, construindo narrativas que se plasmam numa só imagem. A fotografia que faz o cartaz de Somos Migrantes mostra uma mala de onde sai uma mão, um braço, deixando perceber que o conteúdo da mala é, na verdade, uma pessoa. É a fotografia de um homem que, aos 42 anos, escapou da Alemanha de Leste dentro de uma mala como a da imagem e que se deixou, posteriormente, fotografar por Lozano no seu estúdio. O mesmo acontece com a mulher marroquina que chegou a Algeciras, em Espanha, dentro do pneu sobressalente de um camião, ou com o homem que remou num bote, com mais onze pessoas, entre o Senegal e as Ilhas Canárias. Sabemos que aquelas imagens foram criadas quando os sujeitos que as protagonizam já estavam em segurança, por vezes muito tempo depois disso, ao contrário com as imagens de Sergi Cámara ou Kristóf Hölvényi, que apontaram as objectivas em pleno processo de fuga de centenas de pessoas, mas não há pacificação que nasça dessa certeza. Talvez porque as imagens captadas nos momentos da fuga guardem ainda alguma esperança, mesmo que ténue, e as imagens encenadas por Monica Lozano ofereçam ao olhar muito mais do que um processo concluído e arrumado no passado: a certeza de que toda a esperança do mundo não basta para contrariar o mal que fazemos uns aos outros desde que o mundo é mundo e que os territórios se muniram de fronteiras e exércitos.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Blimunda, Dez.2016)

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