O tempo que passa


Os estaleiros navais de Lai Chi Vun começaram a ser demolidos. As velhas estruturas junto à aldeia eram ultimamente um lugar silencioso, um lugar onde o tempo se observava em camadas sem que fosse preciso teorizar sobre a sua passagem. Na passadeira da San Ma Lo, dois monges budistas esperam a vez para atravessar. Um deles exibe uma barriga pouco harmoniosa com a ideia de contenção alimentar, e duvido mesmo que seja vegetariano, mas parece tão feliz e em harmonia com o universo que a barriga acaba por fazer parte do hábito. O homem que me vende a fruta no Patane ri-se das minhas tentativas titubeantes de falar cantonês. Apesar disso, ajuda-me e corrige as minhas palavras com simpatia. Chove em Macau e não se percebe se está frio ou calor. Entre um ou outro aguaceiro mais forte e um borralho permanente, os altares dos becos parecem brilhar com a humidade, mas nem por isso o incenso se apaga. Não consigo deixar de pensar nas madeiras dos estaleiros, estarão ensopadas e não haveria fogo que lhes chegasse, mas qualquer buldozzer fará o serviço sem dificuldade.

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