Crumbs, um livrinho à conquista do mundo

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A editora Kingpin Books acaba de publicar uma antologia que reúne dezassete autores portugueses de banda desenhada. Apresentado em Leeds, Crumbs quer mostrar ao mundo o que de melhor se faz em Portugal.

crumbs1O mercado português de banda desenhada tem vivido de altos e baixos, oscilando entre anos editoriais com poucos títulos editados e outros com uma certa renovação a querer surgir no horizonte. A um mês de terminar 2014, pode dizer-se que este foi um ano de esperança, com uma variedade de livros assinalável e algumas apostas a afirmarem claramente a qualidade da banda desenhada produzida por jovens autores e por nomes já conhecidos do público. Para além de algumas edições de peso trazidas de mercados estrangeiros, como Habibi, de Craig Thompson, editado pela Devir, ou Cachalote, dos brasileiros Daniel Galera e Rafael Coutinho, editado pela Polvo, muitos foram os títulos de autores portugueses a fazerem-se notar nas livrarias.

Entre esses títulos, alguns surgiram com a chancela da Kingpin Books, uma editora que inclui autores portugueses no seu catálogo desde o início, proporcionando, frequentemente, o encontro entre argumentistas e desenhadores. Fundada em 2006, esta editora é um caso de sucesso no pequeno mercado português de banda desenhada, assegurando a publicação regular de novos títulos e compondo um catálogo onde figuram vários livros premiados e algumas estreias que se revelaram prodigiosas, como é o caso de Joana Afonso e do seu primeiro álbum, O Baile, distinguido na categoria de Melhor Álbum nos Prémios Nacionais de Banda Desenhada atribuídos no âmbito do Amadora BD, em 2013.

É neste contexto de apostas persistentes que surge Crumbs, uma antologia de autores portugueses com a marca da Kingpin Books. A particularidade desta antologia está no facto de ser uma edição totalmente em língua inglesa, apontando baterias para a divulgação dos autores e do projecto editorial que os acolhe no mercado internacional. Como explicou Mário de Freitas, editor da Kingpin Books, ao PONTO FINAL, “em Portugal, temos muitos leitores bilingues de banda desenhada que não deixarão de comprar este livro por ele ser em inglês.” Não é, aliás, a primeira vez que a editora publica em inglês, à semelhança do que têm vindo a fazer outras editoras nacionais, como a El Pep ou a Chili Com Carne, procurando quebrar as fronteiras do pequeno mercado nacional. “Safe Place”, de André Pereira e Paula Almeida, editado pela Kingpin Books este ano, acaba por ser um antecessor deste novo projecto e conseguiu distribuição no mercado internacional através da Diamond, distribuidora que trabalha nos mercados europeu e norte-americano. Com Crumbs, o desafio é mais ambicioso e passa por criar uma montra de autores que possam ser dados a conhecer além-fronteiras.

A antologia, num formato livro-de-bolso, reúne dezassete autores, entre argumentistas, desenhadores e autores que cumprem ambas as tarefas. São doze histórias curtas cuja única limitação prévia foi a do formato que, apesar de pequeno, não prejudica a leitura. O resultado é uma montra diversa e coerente da banda desenhada que se faz por estes dias em Portugal, entre autores já consagrados, como David Soares, Osvaldo Medina ou André Oliveira, e novíssimas esperanças, como Sérgio Marques ou Inês Galo. O livro foi apresentado na última edição do Amadora BD, festival internacional de banda desenhada, mas o seu objectivo primordial era chegar ao festival Thought Bubble – Leeds Comic Art Festival, em Inglaterra, onde seria apresentado aos leitores de língua inglesa. Mário de Freitas, que falou com o PONTO FINAL antes da viagem para Leeds, com o livro acabado de chegar da gráfica, mostrou-se optimista com o que levaria na bagagem: “Tenho uma amostra diversificada e representativa dos vários tipos de artistas que há em Portugal a fazer banda desenhada dentro daquilo que é a minha filosofia de edição, ou seja, contar histórias. A partir daqui, espero que este possa ser o primeiro de vários Crumbs, e que possa haver um Crumbs anual, sempre com a ideia de equilibrar autores consagrados com novos. Naturalmente, não serão sempre os mesmos, ainda que suspeite que alguns argumentistas se possam repetir, porque há mais argumentistas do que desenhadores.”

Memória e maturidade
A diversidade presente nesta antologia torna difícil uma caracterização global, mas a leitura das doze histórias faz sobressair uma predominância do tema da memória, muitas vezes com remissões para a infância, esse território sempre tão rico em matéria narrativa e totalmente disponível para a reinvenção. “Tunnels”, de Fernando Dordio e Bernardo Majer, “The Boar-Man is Getting Married: or Leng Tch’e”, de David Soares e Pedro Serpa, ou “The Green Pool”, de Francisco Sousa Lobo são exemplos elucidativos dessa vontade de recuperar num passado real ou construído a matéria para as ficções que constroem neste Crumbs. Apesar de este e de outros elementos que podem destacar-se como recorrentes na antologia, o que melhor define o volume de 144 páginas é a diversidade, por um lado, e a qualidade, por outro. Visível nos diferentes modos de narrar, estruturar as pranchas ou construir cada cena, a diversidade constata-se igualmente no traço, no uso da cor (ou do preto e branco, em alguns casos) e na forma de enquadrar os planos. Quanto à qualidade, confirma-se na maturidade das histórias, nos arcos narrativos eficazes, na afirmação de estilos e abordagens próprias sem temer tão diversificada vizinhança. Crumbs não esgota, de modo algum, o cenário plural da banda desenhada portuguesa contemporânea, onde também há espaço para trabalhos mais experimentais do ponto de vista gráfico, para epígonos de certos clássicos da arte ou para migrações entre linguagens afins, como a ilustração, mas a selecção de autores não deixa de ser representativa de um momento em que as histórias assumem papel de relevo no reanimar de um mercado que andava a precisar de novo fôlego.

Agora que Crumbs está lançado, Mário de Freitas tentará que a sua viagem prossiga para outros espaços. “Espero poder ir a Angoulême [Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême, em França, um dos maiores e mais prestigiados do mundo] no início de 2015 e, ainda que seja um mercado predominantemente francófono, o festival tem gente de toda a parte. Cada oportunidade de colocar o Crumbs no exterior, será aproveitada, claro. Isto não foi uma coisa pensada para fazer dinheiro, mas sim para abrir novas portas e outros horizontes. Felizmente, houve muitas pessoas a responderem ao repto e o resultado está aí.” Um livrinho de bolso onde cabe uma parte considerável do que se está a fazer em Portugal no campo da banda desenhada.

À chegada de Leeds, mas ainda a tempo deste artigo, Mário de Freitas confirmou as expectativas que tinha relativamente à presença de Crumbs no Thought Bubble: “as vendas e a receptividade foram excelentes, tendo em conta que o livro esteve numa mesa pequena, entre mais de trezentas, com autores e editoras diferentes.” A imprensa local destacou a antologia de autores portugueses e a presença da Kingpin Books fez-se notar, levando consigo as esperanças crescentes de muitos autores e de um mercado que parece querer renascer. Depois de Leeds, a antologia está pronta para percorrer novos caminhos. Entre os mercados europeu e norte-americano assegurados pela distribuição da Diamond, talvez Macau possa ser uma paragem a considerar neste itinerário que é o dos autores de Crumbs, mas também o da banda desenhada portuguesa contemporânea. Afinal, se o cantonês e o português são línguas oficiais, o inglês continua a ser língua franca.

Sara Figueiredo Costa
(publicado no Ponto Final, 2 Dez. “014)

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