Laurent Gaudé em conversa

Não foi a New Orleans depois da tragédia do Katrina, mas veio a Lisboa apresentar o romance Furacão, que acompanha os dias da catástrofe. Laurent Gaudé, escritor francês com um prémio Goncourt no currículo, falou com a Time Out sobre o seu último livro.

Porquê o cenário do furacão Katrina? Uma história como esta não poderia passar-se em qualquer outro cenário de devastação?
Podia, com certeza. Mas eu escolhi o Katrina porque se tratou de uma dupla tragédia, a natural e a política, esta muito relacionada com as condições sociais do Louisiana. Isso permitiu-me trabalhar o registo da compaixão, mas também o da raiva, motivado pelos problemas sociais.

Para além da devastação, Furacão aborda as diferenças sociais. Uma catástrofe natural confirma que não somos todos assim tão iguais?
Infelizmente, sim. É uma dupla tragédia, porque aquelas pessoas não tinham acesso a coisas tão simples como um carro, dinheiro e, sobretudo, informação sobre o que ia acontecer, quando e para onde podiam fugir. E a informação é capaz de ser o primeiro sinal de riqueza. Foi isso que tornou o Katrina tão impressionante: a América descobriu que tinha subestimado uma fatia considerável da população.

Visitou New Orleans depois do furacão?
Não. Trabalhei sempre a partir de documentos. Mas tentei ser fiel à cronologia da catástrofe, bem como à geografia. Além do mais, o meu objecto era a New Orleans durante o furacão, e essa é aquela viagem documental que não se programa…

A voz de Josephine, narradora, é um pouco a voz da História, da memória recente dos EUA e dos direitos civis. Inspirou-se em alguma personagem histórica?
Não, é uma personagem totalmente ficcional. Para além da dimensão individual, quis que Josephine pudesse encarnar o colectivo, os negros pobres do sul dos Estados Unidos, a memória da luta pelos direitos civis. Apesar disso, a ideia para a Josephine partiu de uma fotografia da Paris-Match, de uma mulher negra, velha, embrulhada na bandeira dos EUA durante a evacuação de New Orleans após o furacão.

Uma das questões colocadas por este livro é a da fidelidade aos nossos princípios. Acredita ter respondido ou a condição humana continua a ser muito imprevisível?
A minha visão pessoal, que espero reflectir no livro, é que em momentos tão terríveis como os de uma catástrofe, a fidelidade às nossas ideias e princípios é a única coisa que nos pode dar força. Se desaparecem as casas, o trabalho, o quotidiano, a política, tudo, temos de nos agarrar a alguma coisa. É também é isso que dá beleza à espécie humana.

A devastação é um território privilegiado para a literatura?
É terrível assumi-lo, mas sim. Sempre separando o escritor do cidadão, que vê a devastação como algo que espera nunca experimentar.

Sara Figueiredo Costa
(entrevista publicada na Time Out, Maio 2012)

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