O Bom Soldado Švejk

capasvejk

Jaroslav Hašek
O Bom Soldado Švejk
Tinta da China
Tradução de Lumir Nahodil

Um clássico que chega às livrarias traz dificuldade acrescida na hora de escrever sobre ele: dificilmente os seus temas serão outros que não a condição humana, os dilemas da consciência, a exibição do melhor e do pior das qualidades que a nossa espécie partilha. Isto valerá para Os Maias como para a Odisseia, para o Crime e Castigo como para o Dom Quixote. E vale também para O Bom Soldado Švejk, uma pérola checa a ecoar os restos do império austro-húngaro e a dar facadinhas certeiras no poder, na disciplina que o assegura e na ausência de dúvidas que o alimenta.

Originalmente publicado em 1923, o livro de Hašek acompanha as peripécias de um soldado pouco instruído e com uma incapacidade nata de se manter calado. Quase uma figura-tipo, não fosse a força da sua personalidade, Švejk é tanto a voz da arraia-miúda como o pícaro que fala sem pensar, mostrando uma consciência política e histórica que não se sabe de onde lhe vem, como se a ingenuidade e uma certa tolice lhe permitissem apontar verdades inquestionáveis (e por vezes dolorosas) sem saber que o está a fazer. À genuinidade um pouco troglodita de Švejk junta-se a astúcia de um narrador com um programa claro e excepcionalmente bem executado no que toca à linguagem, permitindo que o discurso das personagens seja tão coloquial que não há espaço para floreados ou artifícios dispensáveis. As discussões de Švejk com os seus superiores, em plena Grande Guerra, o vernáculo dos homens nas cervejarias ou as digressões filosóficas sobre religião, política e diplomacia podem soar a conversas de café, mas rapidamente se confirmam como reflexões profundas sobre a perversão do poder, a insanidade da guerra e a distância entre o quotidiano dos soldados rasos (que às vezes são cervejeiros, costureiras, sapateiros…) e o daqueles que lhes decidem o destino.

É a primeira vez que se edita em português a versão integral deste livro, com a vantagem de uma tradução de primeira água e de um design que dá vontade de pendurar a obra na parede para toda a gente ver, à semelhança do que tem acontecido com a colecção de humor da Tinta da China. E se há tijolo livresco que mereça horas de leitura atenta neste final de ano é O Bom Soldado Švejk – os podres poderes, a insanidade da burocracia e a corrupção, estão lá todos. Um clássico é isto.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na Time Out, Dez. 2012)

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s