ANIMAL COLLECTIVE: A VANGUARDA DA BANDA DESENHADA EUROPEIA

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Até ao final deste mês, a galeria CentroCentro, instalada no Palácio Cibelles, em Madrid, acolhe uma exposição dedicada à banda desenhada europeia contemporânea. Animal Collective dá conta do trabalho de vinte e dois colectivos cuja produção se espalha por fanzines, livros, cartazes e pequenas publicações de difícil classificação, e também por encontros e festivais nem sempre reconhecidos pelo radar da imprensa cultural.

Vanguarda é um dos termos mais utilizados nos textos que estabelecem o percurso expositivo. Haveria quem preferisse falar em edição alternativa, banda desenhada independente ou outros termos que falham sempre na sua descrição dos objectos, mesmo que sejam amplamente reconhecidos pela comunidade de produtores e leitores destas publicações. E talvez comunidade seja um bom termo para enquadrar o que se passa num meio tão plural e visualmente variado como o que se mostra em Animal Collective. O trabalho dos eslovenos da Stripburger ou dos galegos do Liceo Mutante poderá não ter muitos traços comuns em termos de linha gráfica ou modo de edição, mas une-os, tal como aos restantes colectivos presentes na exposição, um modo comum de se dedicarem aos objectos editoriais que criam, quase sempre investindo dinheiro do próprio bolso sem que um retorno significativo seja esperado, de distribuírem as suas publicações, com recurso à internet e à presença em feiras e festivais, de partilharem práticas e trabalhos com vários outros colectivos, sem que a distância geográfica seja relevante. Percebe-se, ao longo desta exposição, que é neste modo de trabalhar e partilhar em rede que está parte considerável do valor, artístico e comunicativo, desta banda desenhada. E no que à cena europeia diz respeito, percebe-se igualmente a sua pujança em termos criativos e experimentais, procurando explorar a linguagem da banda desenhada, empurrando-lhe os limites e tentando abordagens pouco convencionais. Alberto García Marcos, que comissariou a exposição em parceria com César Sánchez, falou à Blimunda sobre esta cena europeia de banda desenhada, destacando, precisamente, o seu carácter vanguardista: «Sem dúvida, o nível de vanguarda da banda desenhada europeia é importante, se não em termos de vendas, pelo menos em termos artísticos. Não me atrevo a dizer que seja superior ao das outras grandes potências mundiais da banda desenhada, Estados Unidos e Japão, mas não lhes fica a dever nada. Na verdade, o que temos percebido nos últimos anos é que é cada vez mais difícil estabelecer fronteiras entre zonas geográficas. Um autor japonês como Yuichi Yokoyama pode ser tremendamente influente para a vanguarda europeia e um autor como Olivier Schrauwen pode influenciar os autores norte-americanos. Na concepção inicial da exposição Animal Collective planeámos mostrar também algumas obras da revista norte-americana Kramers Ergot e da japonesa Garo. E se acabámos por não o fazer foi apenas por questões logísticas e de organização, porque essas revistas de vanguarda influenciaram muito a banda desenhada europeia e são a prova de que as fronteiras geográficas se diluem muito quando falamos de um meio tão eminentemente visual como o da banda desenhada. De qualquer modo, diria que o nível de vanguarda na banda desenhada europeia, especialmente em países periféricos, países que historicamente não têm uma indústria de banda desenhada muito forte, é importante. Finlândia, Letónia, Noruega, Portugal, não ficam a dever nada em termos de vanguarda à grande indústria europeia que é a francófona.»

O trabalho de escolher cerca de uma vintena de projectos e colectivos entre os muitos que vão desenvolvendo o seu trabalho neste momento não terá sido fácil. A democratização do acesso aos meios de produção editorial, assegurada pela impressão digital e pelo número cada vez maior de pessoas que se dedicam a este trabalho sem que essa seja a sua fonte de subsistência, associada a um regresso às técnicas de impressão tradicionais, cada vez mais procuradas por quem quer fazer publicações de curta tiragem sem depender de terceiros, têm ajudado a criar uma verdadeira cena editorial à margem daquilo a que chamamos mercado e a banda desenhada e a ilustração são um campo fértil nesta vaga. Alberto García Marcos explicou o processo de escolha destes coletivos num universo que é vasto e em constante mutação do seguinte modo: «Na maior parte dos casos, escolhemos colectivos que conhecemos bem. Tentamos circular pela Europa e ir acompanhando esta vanguarda. Com muitos dos colectivos já tínhamos uma relação pessoal, profissional ou de amizade. Também tentámos que estivessem representados a maioria dos países europeus. De qualquer modo, não nos limitámos aos que conhecíamos pessoalmente, mas contactámos com todos aqueles cujo trabalho nos tinha impressionado nos últimos anos e nos parecia relevante para a banda desenhada europeia.» Num cenário onde autores e editores são muitas vezes a mesma pessoa, e onde a troca de experiências e trabalho se faz com cada vez menos limitações geográficas, percebe-se, ao percorrer a exposição, que é nos colectivos que está o núcleo mais irrequieto, produtivo e experimentalista desta vaga de banda desenhada contemporânea. «A nossa ideia», prossegue o comissário, «era mostrar uma selecção muito ampla do que se faz hoje em dia no terreno da vanguarda na Europa e também mostrar que as propostas com mais força e mais capacidade de influenciar são as que se realizam em colaboração, as que são feitas pelos colectivos. Creio que quem vir a exposição perceberá a importância que os colectivos tiveram e têm no desenvolvimento da banda desenhada europeia das últimas duas décadas, pelo menos.» Em Espanha, cuja presença nesta Animal Collective é predominante, o cenário ecoa aquele a que assistimos na Europa: «A cena da banda desenhada espanhola não é muito grande e é normal que os autores se conheçam e se influenciem mutuamente. Entre eles existe um fluxo de ideias e de interesse em praticar novas formas de contar as coisas. Neste sentido, os festivais de banda desenhada independente são muito importantes: Tenderete, em Valéncia, Gutter Fest, em Barcelona, Graf, em Madrid e Barcelona… São pontos de encontro de autores de diferentes pontos da geografia espanhola onde acontecem interacções muito interessantes que acabam por dar lugar a projectos concretos. Na exposição Animal Collective incluímos estes festivais como se fossem colectivos, porque a sua importância no desenvolvimento da vanguarda da banda desenhada em Espanha é fundamental. Hoje em dia não se pode entender a vanguarda sem a componente de intercâmbio e colaboração.»

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A maioria das publicações feitas por estes colectivos não se encontrarão numa livraria generalista, e talvez também seja difícil encontrá-las em livrarias especializadas em banda desenhada, dependendo das escolhas dos livreiros. O mais certo é que os leitores acedam a pubicações como a revista kuš! ou os livros da Apa Apa através da internet, por recomendação de alguém ou na banca de algum festival de edição. Nas palavras do co-comissário da Animal Collective, «a banda desenhada é um meio que desperta paixões. Os seus seguidores estão habituados a ter de procurar activamente aquelas histórias, aquelas grafias, aqueles temas que lhes interessam. Se não os encontram numa livraria, procurarão na internet até encontrarem o editor e hão-de comprar on-line as bandas desenhadas que querem. Isto acontece, para começar, porque a banda desenhada é um meio de expressão e e uma expressão artística marginal, ainda que haja alguns bestsellers. O leitor de banda desenhada sabe disto e aceita-o, procurando ativamente a forma de aceder ao material que lhe interessa. Por outro lado, é um meio onde a variedade de registos gráficos e narrativos é tão grande que existem propostas que conquistam leitores concretos que fariam qualquer coisa para conseguir uma certa obra. E isto é assim porque, ao contrário do que acontece com o cinema, na banda desenhada – pelo menos na mais vanguardista – não há uma exigência económica tão grande, uma exigência que obrigue a rebaixar o nível de compromisso pessoal para poder agradar a um público mais amplo. Os autores e editores de banda desenhada de vanguarda apenas têm em conta critérios artísticos e isto é algo que os leitores percebem. É uma demonstração de honradez e os leitores respondem com o seu compromisso e a sua fidelidade.»

Numa exposição que percorre alguns dos mais activos projectos editoriais da actual banda desenhada europeia, oriundos de países como a Alemanha, a Letónia, a França ou a Noruega, a ausência de Portugal faz-se notar. Não há qualquer vestígio de patriotismo amargurado nesta observação, mas antes uma constatação: em Portugal, a cena editorial de banda desenhada é povoada por colectivos que não só têm semelhanças no modo de trabalhar com muitos dos colectivos expostos em Animal Collective, como fazem parte activa desta rede que mantém contactos e partilha projectos. Na exposição é possível, por exemplo, folhear um número da revista kuš!, da Letónia, apenas com autores portugueses e com selecção de Marcos Farrajota, um dos mais activos dinamizadores desta cena editorial a que poderíamos chamar de independente e o rosto mais conhecido da Chili Com Carne, associação que tem trabalhado com muitos colectivos europeus. Afastando rasgos de patriotismo, mas ainda assim notando esta ausência como relevante, perguntámos, a Alberto García Marcos por que motivo não havia qualquer colectivo português na exposição e a resposta foi clara: «Não foi uma decisão consciente, simplesmente houve motivos de espaço e logística. De facto, os dois comissários da exposição somos editores e estamos em contacto, temos relações de amizade e temos colaborado em vários projectos da Chili Com Carne. Uma das últimas obras que editámos é de Amanda Baeza, que nasceu no Chile mas é portuguesa por adopção, e editámo-la precisamente por recomendação da Chili Com Carne. De qualquer modo, reconheço que teria sido interessante, positivo e enriquecedor ter incluído obras de colectivos portugueses. Podemos considerar esta uma das falhas da exposição, ainda que espere que as obras mostradas possam compensá-la.» A ausência de portugueses não perturba a essência de Animal Collective, cujo olhar passa pelos modos de trabalhar uma linguagem, a da banda desenhada, a partir de contextos bem definidos de produção editorial e distribuição. Do norte ao sul da Europa, os exemplos são muitos e todos contribuem para um retrato que assume muitos ângulos, mas onde se destaca a vontade de editar com as próprias mãos e de dar a ler aquilo que dificilmente caberia num álbum cartonado com pranchas delimitadas e um número fixo de páginas.

Sara Figueiredo Costa
(publicado na revista Blimunda, Jan.2017)

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